Mea culpa indispensável


Os números não dizem tudo, mas seria imprudente e tolo ignora-los. Se não captam aspectos imensuráveis dos fenômenos, podem dar pistas para a compreensão dos fatos. No mínimo denunciarão alguma de nossas nem sempre compreensíveis negligências. Aí, então, manda o bom senso perguntarmo-nos em quê e onde erramos. Sem isso, enveredamos nas trilhas da insensatez, atribuindo a terceiros a responsabilidade por fatos que nos desagradam e cuja ocorrência contou de alguma forma com nossa contribuição.

Informações divulgadas sobre a recuperação da imagem do Presidente da República e seu governo parecem surpreender-nos. De nós, que alardeamos compromisso com a superação da desigualdade mais que com qualquer outro objetivo, pode – e deve – ser cobrada a quantidade e a qualidade dos tijolos oferecidos para a construção de uma sociedade e um estado que dizemos às portas da barbárie. Afinal, nenhuma sociedade será melhor que os societários que a constroem cotidianamente.

Das más qualidades do ex-capitão excluído da força terrestre, todos – de direita e de esquerda – temos notícia, farta e esclarecedora, e não é de hoje. De seus preconceitos e apego aos valores anti-humanísticos, também. Jair Bolsonaro nunca escondeu sua admiração pela violência, mesmo (e talvez por isso) quando ofensiva aos direitos humanos e à democracia. O atentado terrorista frustrado que o levou às barras de um tribunal de colegas e a adoração do mais notável torturador da ditadura, se não são manifestações isoladas, terão sido o clímax da expressão de seus mais profundos sentimentos. Não obstante, quase 60 milhões dos eleitores conduziram-no, ensandecidos, ao Palácio do Planalto.

Para melhor compreensão do fenômeno aparentemente inexplicável, abstraiamos a interferência criminosa de Sérgio Moro no resultado eleitoral. Neste caso, haveremos de identificar certa semelhança de valores entre o ex-capitão e o ex-metalúrgico. Em algum dos dois, se não em ambos, poderia estar ausente o desejo de se tornar mito. Na realidade imposta por parte dos seus seguidores, no entanto, lado a lado o fanatismo é o mesmo. A tal ponto, que seria válido supor Fernando Haddad não ter todos os votos que seriam de Lula. Mitos vivos são insubstituíveis na adoração oferecida.

Mas isso, queiramos ou não, são favas contadas. Pertencem, já, à História. Tentar explicação minimamente razoável para os quase 40% de apoio que Bolsonaro marca é o que de melhor se pode fazer. Formular perguntas, as perguntas certas, aquelas que fogem à atribuição de todos os males a terceiros, não a nós mesmos, parece-me indispensável.

O que explica a timidez das assim chamadas esquerdas, com representação ponderável no Congresso? Como admitir a preferência, nos partidos ditos progressistas, pela questão eleitoral, abandonando o que é prioritário – a defesa radical da democracia e do estado de Direito? Quais as razões que impedem uma frente ampla dos convergentes na crítica ao governo?

Exemplificativas, tais perguntas podem trazer respostas capazes de vencer o egoísmo e a vaidade de uns, interesses pouco recomendáveis de outros e os compromissos assumidos por quase todos. Enquanto permanecerem intocados, esses ingredientes continuarão a perturbar a defesa do Estado democrático de Direito e o convívio com a violência presente em todo Estado policial. Mea culpa é coisa que deve ser exigida aos dois lados.

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