Maus ventos


Pouco há para ser comemorado neste dia dedicado ao meio ambiente. Não se trata, apenas, de chamar a atenção para a pandemia que ceifa a vida de tanta gente, mundo a fora, país a dentro. Neste caso e no Brasil, com uma agravante surpreendente, menos pelo perfil dos protagonistas e mais pela posição por eles ocupada no aparato governamental. Ninguém menos que o próprio Presidente da República pode ser responsabilizado pelo fatídico alcance da covid-19, já ultrapassado o número de mortos tantas vezes anunciado. Caminhamos em direção à quarta dezena de milhar de vítimas, enquanto ecoa nos ouvidos ainda sensíveis à tragédia o e daí? presidencial. Como grande parte da população dificilmente esquecerá do deprimente espetáculo de 22 de abril, encenação a um só tempo autoritária e macabra, em palco de onde deveriam partir a esperança e o apelo à fraternidade. Aproveitemos a pandemia e façamos a boiada passar. A mensagem, dita pelo sinistro que trata do meio ambiente, disse das inspirações que o movem e de que são frequentes as façanhas: a devastação crescente das florestas, o genocídio dos povos indígenas e quilombolas, a invasão das terras indígenas, a perseguição à cultura, o incentivo à mineração predatória...

Se nada há que justifique festejos, neste 5 de Junho de 2020, há coisas demais capazes de justificar séria e profunda reflexão. Já não se trata de recuperar o passado, até porque isso nem sempre é possível. É absolutamente viável, porém, fazer da reflexão a mola propulsora de permanente e cada dia mais vigorosa resistência. Se não em nosso próprio nome, em nome de nossos filhos, netos e de quem mais vier depois. Nossas aspirações podem transformar-se, com o ar saído das narinas, nos bons ventos de que tanto precisamos.

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