Marx em debate*

O livro Pela mão de Alice, autoria do filósofo Boaventura de Sousa Santos (Universidade de Coimbra, Portugal), mereceu comentários do filósofo brasileiro José Paulo Netto. De como não ler Marx ou Marx de Sousa Santos é o título. Agora, a análise de José Paulo é comentada. Para entender as coisas, as pessoas, o mundo e seus problemas, nada melhor que o debate. Em espaço o mais aberto possível. (O editor).


Excelente a resenha feita por José Paulo Netto para parte do livro de Boaventura de Sousa Santos. Eu nunca li o livro deste. Mas li bastante Marx e alguns autores que se dedicam à análise da obra de Marx. Creio haver muitas injustiças e incompreensões acerca do materialismo histórico-dialético. Boa parte delas apontada por JPN. Talvez dê pra sumarizar, com ele, assim: sendo Marx um autor "moderno" e estando nós vivendo uma época "pós-moderna", sua obra passou a ter um interesse meramente histórico, pois os objetos (relações, processos e estruturas) a que se dedica desapareceram e seu impacto sobre a realidade social (as revoluções socialistas do século XX) se esvaiu. Creio que parte das injustiças e incompreensões derivam de duas atitudes equivocadas em relação à obra de Marx: primeiro, uma atitude utilitarista que vê Marx, antes de mais nada, como um "revolucionário", alguém cujo compromisso prioritário era acabar com o capitalismo e fazer o socialismo; segundo, a atitude "fatorista", como aponta Netto, desde a qual a obra do Mouro é apreciada como rica fonte para o desenvolvimento de reflexões especializadas nos vários campos da ciência. Aos dois casos correspondem problemas vários que tem a ver com o modo mesmo de se lidar com o conhecimento, seja ele científico ou não. Feliz ou infelizmente, a persistência do capitalismo e dos males que ele causa mantém o interesse pela obra de Marx. Ainda que esse interesse seja, muitas vezes, "destrutivo", como no caso do que se passou a chamar de "pós-modernismo", a conotação negativa, limitada, atribuída à obra de Marx se revela sempre episódica e oportunista. Nada que as políticas neoliberais mesmas, por exemplo, não resolvam. Aliás, é bom lembrar que estas começam a ganhar corpo na década de 1970. Mas desde os anos 1940 o pensamento neoliberal se imiscui nas universidades, nas editorias da imprensa, nas entidades empresariais etc. A luta de classes vinha sendo travada no campo das interpretações sobre a realidade. Em boa medida, o "pensamento pós-moderno" é expressão da vitória momentânea da burguesia financeira nessa luta e uma "derrota da dialética", pra retomar o título da tese do Leandro Konder sobre o marxismo no Brasil. Ocorre que o pensamento pós-moderno não tem respostas que caibam na dinâmica do capitalismo. Daí Marx continuar a assombrar neoliberais e pós-modernos de todo tipo. Porém, não se pode conhecer Marx sem ler o que ele escreveu, sem conhecer suas análises, sem situá-las no tempo. E o que vale pra ele, vale pra qualquer autor. Tenho a sensação de que Marx já tem e terá duração mais longeva do que qualquer de seus críticos, a despeito de toda crítica e fuxico. Isso não se deve à sua personalidade, mas à qualidade da teoria que formulou. Conhecê-la abre diante de nós o mundo e suas possibilidades. Mas conhecê-lo implica aceitar a abordagem totalizante. O próprio Marx, defendendo Hegel de seus amigos que criticavam o pai da dialética idealista, dizia ser incorreto apreciar a obra de um autor selecionando dela uma parte que se queira criticar. Fora do todo, parte nenhuma faz sentido. Logo, a crítica deve ser sempre integral, pois isso confere integridade a ela e a seu autor. Me agrada muito a atitude intelectual de Marx. E me entristece que se o tenha aprisionado nas teias ou da política rasa ou da ciência de oportunidade, que também assola pessoas que se vêem como "marxistas". Nas universidades se difundiu uma vulgata supostamente marxista. Do mesmo modo que avançou muito o carnaval pós-moderno. Em março de 2020 estamos vivendo as cinzas de ambos. Não por conta de um colóquio de cientistas em busca de luz, mas porque a realidade esfrega em nossas caras perplexas o desafio de compreendê-la e explicá-la. E sem uma leitura rigorosa de Marx, dificilmente sairemos desse atoleiro heurístico.

__________________________________________________________________________________ Marcelo Seráfico, sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas/Departamento de Ciências Sociais.


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