Margem procurada*

O evento de que ora todos participamos tem muito mais que uma celebração. Ele o é, claro, porque marca o lançamento de mais uma edição da Revista Terceira Margem Amazônia. Desta terão falado outros dos muito interessados em conhecer por dentro a região a que faz referência. Por isso, pouco eu teria a acrescentar – se eu por acaso o tivesse.

A celebração resulta do reconhecimento pelo trabalho meritório dos organizadores, que vejo bem representados nas pessoas do sociólogo Lindomar de Jesus de Sousa e Silva e do economista Olenilson José Pinheiro. Por eles levo meu cumprimento a todos os que, organizadores ou autores, proporcionam aos estudiosos da Amazônia a oportunidade de informar-se e, graças a isso, discutir fundamentadamente alguns dos problemas que se colocam diante de todos aqueles que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir.

Se os olhos verão condições de superar as fases invernosas de nossa economia, a do primeiro setor em especial, os ouvidos levarão a mente a enriquecer-se, graças às exposições e debates que a celebração provoca e favorece. Aqui, tudo depende de nós.

Assim, junto ao caráter de celebração, registro outro, propiciatório – de que haverá de resultar o encaminhamento de críticas e sugestões aptas a remover os empecilhos que se têm imposto à economia do primeiro setor, na Região. Oxalá haja ouvidos capazes de captá-las!

Tentarei responder à provocação feita pelos organizadores deste encontro, obediente a três questões julgadas fundamentais à compreensão dos problemas e à identificação dos que podem equacioná-los, quem sabe resolvê-los.

O primeiro desses problemas diz respeito à função de uma publicação acadêmica e a interação das instituições de pesquisa e ensino superior com a sociedade e suas lideranças. Isso significa incursionar na própria maneira de ser da academia. Tanto quanto na observação do comportamento dos agentes políticos que atuam.

Parece definitivamente ultrapassado o tempo em que a academia se supunha um gueto de sabedoria, separado da sociedade que a mantém. Ainda que persistam alguns resquícios dessa percepção malsã, e conduta igualmente perniciosa, estamos falando de exceções, não mais da regra geral. Não fosse assim, os conhecimentos tradicionais permaneceriam no esquecimento, tradutor de certo pensamento preconceituoso e procedimento autoritário.

Sabe-se, hoje, quanto as práticas tradicionais contribuem para resolver problemas que a enfatuada e pernóstica ciência positivista não logrou desvendar.

Daí resulta a imprescindibilidade de a academia permanecer integrada ao meio em que atua, sem perda de atenção e interesses - não raro, beirando a absorção total – pelos laboratórios e gabinetes das instituições. Universidades e institutos de pesquisa, portanto, precisam cada dia mais ver-se como partes integrantes da sociedade, tendo nela sua razão de ser e produzir. Estou definitivamente convencido de que o conhecimento não divulgado corresponde à ignorância.

Igualmente, as lideranças políticas não podem perder de vista a contribuição indispensável à solução dos problemas originada na e oriunda do ambiente acadêmico.

É como se uma – a academia – e outra, a atuação dos líderes, constituem-se moeda em que uma face não faz sentido quando carece da outra. Não é que os meios de divulgação do trabalho acadêmico sejam uma ponte entre a sociedade e a academia. Mais que isso, ambas integram e se integram num ambiente maior, a que se dá o nome de sociedade. Então, por que torna-las indiferentes, uma à outra?

O problema que destacarei em segundo lugar refere-se a certo esquecimento dos pesquisadores e lideranças, quanto a temas e problemas experimentados no dia-a-dia dos habitantes de certo lugar. No caso específico, quanto as vicissitudes, as dificuldades e as questões ligadas ao cotidiano dos amazônidas têm sido contempladas pelo meio acadêmico e seus fazeres.

Lembro a grande lição de Paulo Freire, quando elaborou sua pedagogia do oprimido. Como o consagrado pedagogo, sempre será bom atentar para a realidade vivida pelos indivíduos, toda vez em que se pretexta intervir em sua existência. Só assim seremos capazes de validar o conhecimento científico, acadêmico portanto, a partir dos sujeitos aos quais se deseja aplica-lo.

Exemplifico, louvando-me em experiência compreendida por apenas muito poucos dos contemporâneos do fenômeno a que me reportarei. É certo que outros, muito atentos às consequências dele, podem tê-lo percebido em sua inteireza, mas os interesses individuais sobrepujaram o que se poderia, de uma perspectiva solidária e socialmente apreciável, alcançar de positivo.

Refiro-me à Zona Franca de Manaus. Surgida no final da década dos anos 70 do século passado, ela foi anunciada como uma novidade capaz de redimir a dívida social dos países. Esquecido durante cerca de cinco décadas, o Estado do Amazonas, sua capital em primeiro lugar, teria resgatada tal dívida, porque ali se iniciaria processo econômico sustentável (para usar o jargão em moda), de que se beneficiariam todas as populações amazônicas.

Ultrapassado o primeiro momento, de faceta marcadamente comercial, logo seria implantado parque industrial apto a assegurar a consolidação da experiência, distribuindo com mais justiça a riqueza por ventura produzida.

Reproduzido o capital aqui investido, não tardaria a que o setor primário recebesse também os benefícios anunciados. O interior do Amazonas, então, passaria a revelar dinamismo econômico jamais experimentado. O caboclo não mais teria que migrar para a capital, eis que teria encontrado em seu próprio lugar de nascimento todas as condições de fazer-se realmente humano. O ser humano, portanto, teria tratamento adequado a tal condição. Isso, sem causar danos à natureza, nem disseminar a cultura da violência com que se convive.

Ai dos que ousaram contestar tais previsões. Ai de quem se atrevesse a pôr em dúvida a sabedoria da iniciativa. Afinal, aos ditadores não ocorre pensar que nem eles sabem tudo, nem são raros os seres humanos dotados de inteligência.

A novidade anunciada não foi senão a reprodução de 116 experiências anteriores, com centenas de zonas francas ou instrumentos semelhantes implantados em quase todos os continentes. Muitos deles, à época já apresentando as restrições que foram ignoradas quando se criou a ZFM.

Ao invés de favorecer investimentos em atividades que aproveitassem a riqueza natural da Amazônia, a preferência foi por facilitar a penetração de capitais em negócios interessados no deslocamento de suas unidades produtivas para lugar onde as taxas de retorno se revelassem mais generosas.

Por isso, Manaus foi o lugar escolhido, superando a disputa com o Rio de Janeiro e outras cidades brasileiras. Aqui, não se tinham organizações sindicais fortes. Aqui, a população carecia da oportunidade de emprego, sendo que o conhecido fenômeno do êxodo rural contou com a boa-vontade dos governantes. Para tanto, foram extintas as rotas com que o Serviço de Navegação da Amazônia e da Administração do Porto do Pará – SNAAP atendia às populações ribeirinhas mais distantes. Patrick Tissier, um economista francês, abordou com precisão essas relações sempre prejudiciais à maioria dos habitantes da região.

Quando teria sido a hora de direcionar as atividades industriais para o processamento de matérias primas de que a floresta é farta, a opção foi outra.

Os peixes, abundantes ainda nos rios que cortam a Amazônia, sequer foram lembrados. Sempre os tomo como exemplo, porque vejo cumprir-se neles e com eles, a hipótese de somar efeitos para a frente com os efeitos para trás, como costumam apontar os profissionais da Economia.

Quais seriam os efeitos para trás? O investimento na indústria de construção naval. Campo suficientemente conhecido pelos construtores tradicionais, teria muito a prosperar, inclusive antecipando a instalação de cursos ligados a essa atividade nas universidades locais e regionais. A organização dos profissionais do setor pesqueiro e a capacitação para melhor desempenho de suas habilidades certamente aumentariam a produção de pescado. Isso traria a necessidade de também dinamizar e modernizar a indústria do frio. Surgiriam frigoríficos nos pontos mais estratégicos do território da Amazônia, uma vez que o abastecimento da indústria pesqueira se tornaria ponto crucial do processo.

Para a frente poderíamos contar com o surgimento de atividades ligadas ao preparo de conservantes, molhos, embalagens, filetagem e outros tratamentos do pescado, de modo a torna-lo importante item na pauta de exportações do Amazonas. Talvez fosse demais, mas não inoportuno, falar das vantagens de as técnicas de tratamento do pescado sustentarem importante aproveitamento da pele, transformando-a em couro.

A que se assiste, hoje? Os entendidos no assunto afirmam estarem sempre mais longe os locais onde ainda se encontra peixe em abundância. Continuamos a consumir produtos da pesca industrializados em outras regiões ou países. Nossa indústria naval praticamente desapareceu, porque ainda seria leviano afirmar que renascerá com a tímida atenção que lhe tem sido dispensada.

Não é só o peixe, porém que teria papel importante em nossa economia. Animais de várias espécies poderiam concorrer para o suprimento de proteínas à população. Pacas, cutias e porcos do mato são apenas algumas delas. Cabe mencionar quanto isso levaria ao aparecimento de fazendas desses animais e a elaboração de projetos de pesquisa voltados para o conhecimento ainda maior dos hábitos e reprodução dessas espécies. Tanto quanto de outras, que não caberia aqui mencionar. Até porque há neste auditório pessoas muito mais credenciadas a dizê-lo.

O terceiro ponto que me solicitam abordar tem a ver com as demandas da produção científica e a abrangência do interesse que a cerca. Todo cidadão tem demandas, em relação ao trabalho dos pesquisadores e cientistas? Ou, em outras palavras, pesquisa é algo que só interessa aos cientistas?

Ora, ao longo dessa tediosa exposição, talvez já tenha dado para perceber a minha resposta. Como se trata de uma posição pessoal, justo que ela seja mais bem explicitada e, em seguida, posta também em questão.

Tentarei, portanto, ser mais explícito, no mesmo grau em que espero suscitar amplo e aberto debate.

Em que pese a tal sociedade do conhecimento ser pretexto para uma série de decisões governamentais, vê-se uma realidade diferente a cercar a produção e a aplicação do conhecimento. Já não basta a marginalidade atribuída ao conhecimento produzido pelas populações tradicionais. Se isso prejudica o encontro de soluções mais adequadas aos problemas com que se hão as populações, menor não é o desdém deferido às soluções apresentadas pela academia.

É como se a realidade fosse imposta pelos agentes econômicos e políticos, não pelas necessidades que vitimam os seres humanos – de resto, o objetivo a ser alcançado por qualquer atividade humana e por qualquer governo de sociedade humana.

Todos sabemos que governos não têm a menor chance de errar. Admitir que governos erram, mesmo se contam com excepcionais instrumentos de informações (ABIN, EMBRAPA, IBGE, IPEA etc.), equivalerá a absolve-los de culpa que ainda não conseguiram purgar. Acontece de os governantes decidirem e agirem segundo os beneficiários de sua escolha.

Vivemos período muito propício ao aprendizado – também na política. O que a operação Lavajato denuncia, mais que as falcatruas que cada dia nos chegam ao conhecimento, é a ilustração dessa opção, ao invés de equívoco.

Enquanto os bilhões são fartamente distribuídos entre os comparsas, unidades de saúde são fechadas, laboratórios e gabinetes onde se produz ciência são deteriorados. Pergunte-se a quem se conluiam os governantes!

Não são os acadêmicos, nem os trabalhadores que se veem ombreados com os agentes políticos, para resolver os grandes problemas nacionais. Aproximam-se, cada dia mais, os agentes econômicos dos governantes. Nem basta a essa parceria explorar os recursos nacionais, com todas as más consequências que conhecemos. O caso da cidade mineira de Mariana não permite qualquer ilusão. Vai-se ao exterior, onde a aplicação de recursos brasileiros premia a ação das grandes empresas detentoras de fato do poder.

Faltasse alguma razão para a produção científica ser assunto do interesse de todos, não apenas dos que vivem dela ou dela se aproveitam nos processos industriais ou em outras formas de enriquecimento material, sempre se haverá de lembrar que a ciência também tem deveres para com a população. E não apenas porque é dela que vêm os recursos financeiros necessários aos empreendimentos científicos, e acadêmicos em geral.

Fico por aqui, certo de que terei entediado grande parte dos que me ouvem. A razão? Logo a encontro: é que trato de problemas recorrentes, que nem por o ser desapareceram do elenco de vicissitudes que marcam o cotidiano da maioria dos habitantes desta grande planície.

Antes de encerrar, porém, gostaria de louvar a iniciativa dos organizadores deste evento. Se pudesse dizer algo que os estimulasse a multiplicar momentos como esse, e se tal estímulo encontrasse no seio dos que estudam e pretendem estudar a Amazônia e contribuir para seu justo desenvolvimento, já me daria por muito bem pago.

Obrigado.

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*Palestra proferida no lançamento da revista Terceira Margem Amazônia, v.1.n.5.

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