Malthus, morituri te salutant!


Sou daqueles que não podem se gabar de terem aprendido muito da Matemática. As quatro operações fundamentais, porém, aprendi suficientemente. Ao ponto de saber que nem sempre 2 mais 2 são 4. Para a Economia praticada hoje, portanto, minha serventia intelectual seria nula. Alguns cursos da disciplina que fez a fama de Adam Smith, John M. Keynes, Thomas Hayek, Eugênio Gudin, Celso Furtado, Mário H. Simonsen, Samuel Benchimol, Armando Mendes e Roberto Santos, num certo sentido preencheram lacunas no meu aprendizado. Também mudaram minha percepção dos fenômenos que justificam o status científico desse campo do conhecimento. Em compensação, encheram-me de angústias. Tornou-se mais difícil admitir e contentar-me com números, tabelas e gráficos, para entender e explicar as relações em geral ligadas – às vezes exagerada e exclusivamente – ao ciclo produção/distribuição/consumo de bens e serviços. Definitivamente, essa é percepção pobre, paupérrima até, da própria condição humana. Nem a tosca concepção da Economia como ciência preocupada com a fruição de bens escassos dá conta da riqueza desse instigante espaço onde as relações humanas se desenvolvem. Daí minhas reservas, às vezes firme hostilidade, à ideia de que o mercado resolva todos os problemas-desafios a que a Economia se devota. É isso, no entanto, que advoga boa parte dos estudiosos (nem sempre) desse campo do saber humano.

Números, tabelas e gráficos não fazem sentido, abstraída a realidade a que alegam servir. Ciência justificada pelas ações e a relações humanas de natureza específica, sempre que restrita aos instrumentos usados para explicar tais ações e relações, a Economia deveria ser classificada como uma das chamadas ciências humanas. Hoje, o leitor desatento pode incluí-la no rol das ciências exatas, dado o caráter econométrico que perpassa quase todos os textos referentes às questões que envolvem a produção, distribuição e consumo.

Até aqui, trato de apenas introduzir o problema que me preocupa, qual seja a festejada redução da taxa Selic. Dizem-na a menor jamais experimentada em nossa cambaleante economia. Os foguetes comemorativos espocam nos ambientes oficiais e nos que, por vocação, esperteza ou ignorância os acompanham. Sempre em ritual de lambe-botas, subserviência e oportunismo.

Aos outros, aqueles aos quais é sugerido poupar e investir (para os “cientistas” da Economia, poupança = investimento), resta chupar o dedo. Enquanto o outro lado, o mesmo que promove a foguetaria, trata de juntar aos ganhos certos os que advirão da queda da Selic.

A tomada de recursos dos bancos e fundos estatais, quer dizer, dinheiro público, lhes custará menos. O que for possível poupar – se o for – pelos pobres, perderá em rentabilidade. Óbvia, a impossibilidade de alguém situado na base da pirâmide salarial poupar é ignorada aqui, por mero recurso argumentativo. Mas não é isso que está na cabeça dos que nos (des)governam. Sábios em sua ignorância ou, quem sabe, perversidade abissal, constroem equações e curvas em que o ser humano sequer é lembrado. Ou, se o é, aparece apenas como fator de produção. No mesmo nível da matéria-prima e dos insumos necessários ao processo produtivo. Desse ponto de vista, enquanto a covid-19 não reduzir demasiadamente o exército de reserva, não faltarão substitutos a esmolar o que de direito lhes é negado. Não tardará, aparecerão os defensores e propagadores ostensivos da interpretação de Thomas Malthus, cantando aos quatro cantos: bendita covid-19!

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