Mais um equívoco

Tenho sido repetitivo. Repetirei, novamente: governos não erram; escolhem apenas os beneficiários de suas decisões. Certas ou erradas, o juízo que se faz das escolhas governamentais sempre estará ligado aos interesses ou crenças nas quais depositamos nossas esperanças. Não se espere unanimidade, mesmo quando burros são os tempos. Como a reforçar o que Nélson Rodrigues cansou de dizer.

Não se pode, porém, confundir as coisas: decisão é decisão, exposição de ideias e defesa de teses são coisas diferentes.

Compreende-se, porque prevista, a vergonhosa apresentação do Presidente Jair Bolsonaro em sua primeira presença na Assembleia das Nações Unidas. Seu entendimento, do mundo e das coisas, não permitiria prever desempenho melhor. Faria menos sentido ainda admitir uma surpresa, a menor que fosse. Afinal, foram deles mesmo as palavras que o deram como pequeno demais para presidir um país da importância do Brasil. Só que esse expresso reconhecimento não se fez acompanhar da consequência mais honesta: a renúncia.

Ao contrário, o Presidente decidiu terceirizar canhestramente funções e responsabilidades que só cabem a ele. Pôs Paulo Guedes e Sérgio Moro ao lado, inicialmente dizendo ter dado carta branca a ambos. Afinal - e, ainda neste caso, saiu da boca do Presidente -, não poderia saber de tudo e de todas as coisas. Um posto Ypiranga e um justiceiro tratariam de resolver tudo. Já se viu que não é bem assim. O estafeta entregou cartas de cor diferente, talvez até bilhetes azuis estejam escritos...

A realidade confirma, a cada dia (talvez fosse melhor dizer a cada minuto) o que os brasileiros (excetuados 57 milhões) e o próprio eleito sabiam: ele não tem condições de presidir o Brasil.

As palavras de abertura da reunião internacional integram agora o elenco de vergonhas por que o Brasil tem passado - e ainda passará.

As indiretas lançadas contra outras nações e respectivos governantes, a reiteração de mentiras facilmente desmascaradas, o ódio posto em cada frase - tudo isso mostra o tamanho do nosso (sim, também faço parte da sociedade brasileira, para quem ele deveria exercer seu papel constitucional) Presidente.

Há quem tente identificar os destinatários do discurso mambembe (se isso não ofender as trupes nordestinas e outras) ouvido pela assembleia: os seguidores ensandecidos do capitão. Que, a esta altura, devem estar orando diante do altar onde seu deus repousa, ainda em recuperação de mais uma cirurgia. Alguns, dotados do mesmo (ou nenhum) senso do ridículo ostentado pelo deus que cultuam, estarão batendo palmas e cantando vitória. A vitória de cada um sempre será do tamanho de suas convicções, preconceituosas ou não, sensatas ou não, inteligentes ou não, oportunas ou não.

É na falta de percepção de onde falava Bolsonaro, com que finalidade e para qual plateia, que devemos avaliar a conduta e as palavras dele.

A ONU, queiramos ou não, é a instância maior do até agora frustrado objetivo de fazer do Planeta um lugar bom para se viver. Vivermos todos, habitemos as geleiras do Alasca ou o deserto do Sahara, as regiões tropicais ou a extensão congelada da Groenlândia. Vê-se que o orador da abertura não sabia disso. Daí as pegadinhas contra os governantes de outros países, também presentes.

Quando a sociedade reivindica mais esforço por reduzir as desigualdades sociais e chefes de Estado estrangeiros oferecem a cobertura de despesas que as autoridades brasileiras descartam, sempre alegando que falta dinheiro, ele dá de costas. Nada mais que uma bravata, felizmente em vias de ser contornada. Porque é isso que significa a intenção dos governadores dos Estados da Amazônia.

Houvesse apenas ela - e não é o caso - a ocorrência de incêndios que destroem as florestas brasileiras e ameaçam o ambiente em escala global ensejou a mentira. Mesmo não sendo inédita no currículo presidencial, esta mentira se desfaz, seja pela palavra dos cientistas que lidam com a questão, seja pela reiterada expressão do próprio vice-presidente Antônio Mourão.

Certa vez, falando de um outro atleta, Romário disse que, calado, ele era um poeta. Pode dizer-se do Presidente que, silente ele é um grande orador. Isso, se não fizer arminha com os dedos e deixar-se fotografar com uma criança no colo.

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