M E M Ó R I A P E R D I D A


Orlando Sampaio Silva

Tristeza.

Busco encontrar, na poesia,

o acervo perdido.

Desespero!

Não posso perder a minha poesia,

que guardei, com tantos cuidados

(ou com insuficientes!?),

em muitos arquivos,

na memória de um outro ser.

Este é artificial, fabricado, desumano...

Mas - a terrível revelação –,

esta memória mágica foi destroçada, destruída!!!

Minha poesia é partícipe do meu ser;

ela o integra.

A perda do lado vate do meu ego

é um atentado, é terrorismo no Parnaso.

Quem ousaria pensar: destruição no Olimpo!

Não o permito.

O que não perdi

está em mim, encastelado no meu eu,

na torre da ilusão.

Lá, sobrevive a esperança do reencontro.

Que faço?

A distância é abismal

entre o que perdi

e a possibilidade de encontrá-lo.

O cenário do drama

é constrangedor e absurdo, paradoxal.

A memória em que eu guardei

o que perdi (ou não perdi?...)

não é minha, sendo.

Eu teria que arquivar, por alguns momentos,

a minha memória, que guardo a sete chaves,

no íntimo do meu ser real, humano,

para, como um alquimista do presente,

reconstruir a memória que está fora de mim,

que é artificial,

transformando a esperança e a ilusão

em possibilidade salvadora.

Meus poemas estavam na memória,

não nesta que procuro proteger

nos embates da longa vida,

mas, sim, na que se tornou escombros

na máquina imperfeita,

que há quem a denomine de ordinateur,

mas que, pelo mal que me fez,

prefiro nominar “désorganisateur”.

No desalento,

vou apelar aos anjos,

e à inteligência artificial,

à cibernética, à automação,

à robótica

e à nanotecnologia,

à engenharia genética...

Quem sabe, um drone encontre a memória dos meus versos.

Vou tentar me tornar um ciborgue...

Desesperador!

Com a ajuda do anjo da guarda

e, desses poderes tecnológicos,

talvez meu ser íntegro

possa penetrar no mundo dos artifícios virtuais

e lá, por um quase milagre,

encontrar aquela minha memória artificial

- o disco - que queimou

na fogueira do emaranhado de fios e placas,

como eram queimados, na rudeza da Idade Média,

santos, cristãos-novos, videntes, virgens e bruxas,

no fogo da irracionalidade fanática e perversa.

Sou tentado mesmo a apelar pela proteção

indecifrável e recuperadora,

pura e transcendente,

de Santa Joana d’Arc,

a virgem de Orléans,

heroína martirizada viva na fogueira medieval!

Se conseguir - milagre! -,

terei encontrado o que não perdi.

Na angústia,

não custa tentar!

Se vier a me deparar

com a memória que me foi arrebatada,

darei notícias...

Neste silêncio impenetrável... e ensurdecedor,

os arautos tocarão suas trombetas anunciadoras,

ainda que inaudíveis,

no mistério da saída da invisibilidade

do mundo das coisas perdidas...

(S. Paulo, em 22/10/2018, ante a cena prosaica da perda definitiva do disco rígido do meu computador)

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