Mãos sujas

O desmantelamento do Estado não é feito apenas no atacado. Este parece mais difícil que o outro, o que opera no varejo. Pelas exigências às vezes até constitucionais, sempre há a oportunidade de avançar setorialmente, como se pode testemunhar de muitos dos atos administrativos assinados pelo atual (des)governo. Exemplo recente afeta o serviço do Disque 100, onde registros de desrespeito aos direitos humanos podem ser solicitados. A partir de agora, torna-se mais difícil denunciar violações e solicitar providências relacionadas a ofensas que se refiram especificamente à infância e à adolescência. No ano de 2019, 86.837 denúncias foram levadas ao Disque 100, quase 14% mais que no ano anterior. Aos registros relacionados a atos envolvendo crianças e adolescentes, corresponderam 55% do total. Deste percentual, 38% dizem respeito a negligência; 11% correspondem à violência sexual; 23% à violência psicológica e 23% à violência física. A orientação do Executivo nesse setor – seja quanto ao propósito de desfazer todo e qualquer sinal de proteção social à infância e à adolescência ou ao tratamento inadequado dos problemas das minorias – nem precisaria de tanto, desde a escolha de Damares Alves para o Ministério respectivo. Não são poucas as evidências desse péssimo e trágico casamento entre o desmonte do Estado e a fragilização dos mais fracos. Mais recente, o estímulo da própria sinistra das Mulheres e Direitos Humanos às ofensas à menina estuprada é contundente ilustração. Também não há de surpreender qualquer cidadão medianamente informado a ocorrência como a que vitimou duas pessoas em bar numa cidade paulista onde se encontraram torcedores do Santos e do Palmeiras, faz poucos dias. Dois perderam a vida, simplesmente porque alguns portavam armas. O que muitos previram está ocorrendo: mais armas nas mãos, maior a probabilidade de qualquer pequeno desentendimento terminar em morte. A indústria de armas agradece.

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