Liturgia

O desempenho de funções importantes, seja onde for, obriga o titular ao cumprimento de certas regras irremovíveis. Tanto quanto o sacerdote se submete ao ritual que lhe confere autoridade e desperta a adesão e, muitas vezes, a admiração dos fiéis, os ocupantes de elevadas funções na burocracia do Estado também devem obediência aos ritos funcionais. correspondentes. Aquilo que muitos chamam a liturgia do cargo. Amplo que seja o espaço que essa ritualística ocupa, por dever de ofício ela há de sempre ser seguida. Sob pena de a autoridade ir-se perdendo, tanto mais ocorram ofensas à conduta exigida ou comprometer definitivamente a admiração dos que lhe são subordinados. Se nem o amor entre duas pessoas dispensa a admiração recíproca das partes, esse sentimento funciona como amálgama na reunião de grupos humanos que têm alguns objetivos comuns. Um Presidente da República, portanto, não pode prescindir da adesão e da admiração dos seus concidadãos, da mesma forma que não pode recusar os ônus que a liturgia do cargo lhe impõe. É bem verdade que o Presidente Bolsonaro já confessou sua incapacidade e seu nenhum talento para o exercício a que o guindaram quase 40% do eleitorado brasileiro. Isso não vem ao caso, eis que a incapacidade confessa e o talento escasso por si sós não têm legitimidade para derrubar o ritual a ser cumprido.

De ordinário, agressivo e provocador, é compreensível que ao Presidente da República não agradem as formalidades a que se tem que submeter. Não o é, porém, o enxovalhamento das regras mínimas, não digo de cortesia e urbanidade (embora também devessem ser exigidas) relacionadas ao posto que desejou e hoje ocupa.

Desde o linguajar despropositado e frequentemente inadequado às circunstâncias às agressões pessoais, a distância que o Presidente mantém da civilidade com que deveria comportar-se é abissal.

Custa crer que no seu entorno não haja uma só pessoa sensível aos prejuízos que o agressivo voluntarismo de Jair Bolsonaro pode trazer ao País e à sua população. A não ser que o apego aos posto ocupado desaconselhe seus auxiliares da reação que mais de duzentos milhões de brasileiros têm o direito de esperar.

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