Liberdade, fraternidade, dignidade


Vivia-se o primeiro ano completo, desde o golpe militar que levou à ditadura. Nossa turma, heterogênea quanto à composição ideológica, marcara sua presença no Curso de Direito da UFPA. Talvez a única, em muitos anos, a diplomar todos os que juntos foram alunos de Daniel Queima Coelho de Souza. Porque até nossa chegada à única sala do piso superior do prédio, muitos foram os que não passaram com Daniel. Passar em Introdução à Ciência do Direito, era profético: o estudante poderia comprar o anel. Isso simbolizava a quase certeza de que, aprovado em Introdução, nada obstaria a caminhada até o final do curso. No caso da turma Alceu de Amoroso Lima, apenas Sebastião Freitas Filho partiu antes. Vítima de acidente de trânsito, o colega sofreu de outros padecimentos, que não o fracasso na disciplina ministrada por Daniel.

Nesta data, 20-12-2019, 54 anos separam-nos de uma das mais emblemáticas assembleias de que tenhamos participado. Se, como Sebastião, outros colegas já não têm presença física em nosso meio, temo-los em nossa memória, como nela retivemos os fatos daquele fim de tarde. Éramos então trinta e seis jovens, apenas parte dos que, contemporâneos, experimentavam os primeiros momentos de um sofrimento que durou mais de duas décadas. As causas, mais que as pendengas jurídicas de que todos ansiávamos por participar, eram outras. Não diziam sequer respeito a cada um de nós, individualmente. Uniam-nos o sofrimento da maioria dos nossos semelhantes, o desejo de tê-los irmanados nos mesmos propósitos e a certeza de que muito valera a pena ter perdido noites de sono. Tínhamos consciência do que nos havia sido ministrado pelos professores e do quanto havíamos aprendido no convívio diário, fraterno, solidário – pairando acima de profundas diferenças ideológicas, de expressivas formas diferentes de ver o mundo.

Alceu de Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde deu nome a turma. Integrada por universitários perseguidos e punidos pelo golpe militar, outro não poderia ser o escolhido. Um dos líderes católicos mais lúcidos e influentes de seu tempo, o advogado, crítico literário e jornalista nascido no Cosme Velho, deixou vasta contribuição à luta pela liberdade no Brasil. A rigor, a homenagem prestada pela Turma de 1965 da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Pará era pouco, diante de sua indicação ao Prêmio Nobel da Paz e à concessão do título de Conde, pelo Vaticano. Dentre tantas honrarias de que Alceu se fez merecedor.

Foi, porém, a forma encontrada pela turma daqueles bacharéis em Direito, talvez aquela em que mais numerosos foram os estudantes paraenses ofendidos, para mostrar sua reverência e seu agradecimento aos que pensam, agem e não passam a vida em branco. Como não a passou a própria turma, possivelmente a única em que o paraninfo se solidarizou com o orador escolhido pelos colegas – Pedro Cruz Galvão de Lima – e se negou a discursar. E os vencidos estavam ali ganhando a oportunidade de, na festa de 25 anos de formatura, ouvir o discurso de ambos, o do Presidente da União Acadêmica Paraense deposto e o do Professor Edgar Olintho Contente. Enfim, a festa do pensamento, da liberdade, da fraternidade e da dignidade.

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