LIÇÕES DO VELHO GRAÇA

Odenildo Sena*


Mergulhado na leitura das memórias de infância do Velho Graça, estaciono num trecho e dele tenho pouca vontade de sair, preso que fico a uma verdade tão antiga, mas tão atual em nosso Brasil de hoje:


“Ali agachado e contrito (meu avô), perto da negra Vitória e de Maria Moleca, voluntariamente escravas porque não tinham em que empregar a liberdade (...)”


Pode haver algo mais triste e constrangedor, fico a pensar, do que ver pelas ruas do país essas hordas fantasiadas de verde e amarelo a defender o fim das instituições democráticas e a implorar, como doentes destituídos de qualquer razão, pelo retorno a um tempo de trevas em que os caprichos doentios de um ditador militar e seus lacaios valiam mais que a vontade de uma nação? Só a ignorância e a pobreza de espírito em seu nível mais rasteiro explicam o voluntarismo dessa pobre gente em não saber como nem em quê empregar a liberdade.


A duras penas consigo me despregar daquela página, mas logo adiante Graciliano Ramos me leva a outro momento de sua narrativa que, outra vez, me obriga a nova pausa demorada e reflexiva:


“A riqueza aparecia no inverno, sem vantagem sensível, desaparecia no verão, sem inconveniente. Na prosperidade, os hábitos da família não se modificavam, porque a ausência de saber limitava os desejos (...)”


O que seria de nós sem a literatura para nos ajudar a entender os desvãos do mundo que habitam em nós e em nossas vidas?

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* Professor aposentado da UFAM.

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