Lição oportuna

Divirjo dos que só veem inconvenientes nas eleições a cada dois anos. Nenhum dos adversários do atual calendário eleitoral vai além das despesas incorridas, limitando seus argumentos aos aspectos (não digo sequer econômicos) meramente contábeis ou monetários. Ainda hoje, 17 de setembro de 2020, testemunhamos a função pedagógica embutida no fenômeno, extraída do resultado da votação do parecer sobre a admissibilidade do processo de impeachment do governador Wilson Witzel, do Rio de Janeiro. A robusta denúncia de práticas ilícitas pelo ex-juiz federal não bastaria para pôr em risco o mandato obtido na carona do Presidente Jair Bolsonaro. Nem o histórico de ilicitudes cometidas pelos antecessores autoriza perceber o interesse dos políticos fluminenses com mandato estadual por interromper essa crônica vergonhosa. É aqui cabível lembrar estarmos às vésperas de um pleito, municipal desta vez. Ganha sentido, então, a repetida, gasta, mas ainda válida sentença: é no município que mora o cidadão. No caso do Estado do Rio de Janeiro, em cuja capital pode breve repetir-se votação análoga, a sentença tende a ser reforçada e ganhar mais prestígio. Também parecem robustos, do ponto de vista legal e moral, os argumentos justificativos do pedido de cassação do prefeito Marcelo Crivella. Dos vereadores que julgarão o administrador municipal, muitos certamente pretendem renovar o mandato ora exercido. Acumpliciar-se com o gestor da cidade do Rio de Janeiro pode criar dificuldades na conquista diz votos necessários à permanência na Câmara Municipal da capital fluminense. Dificilmente o resultado da votação desta quinta-feira alterará a conduta dos eleitores quanto à propensão por trocar o voto pelo emprego ou a sinecura desejada. Mas sempre será mais prudente eleger alguém distante (sinceramente ou não) dos delinquentes conhecidos. Uma outra sentença, ingrediente inafastável de nossa história política, não pode ser esquecida: a ocasião faz o ladrão. Há quem diga, e não sem grande dose de razão, que a ocasião apenas revela o ladrão para tal vocacionado. A vida nos tem, feliz ou infelizmente, proporcionado oportuno aprendizado[1] . Como o desta tarde quente de setembro.

[1]

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