Leniência cúmplice




Os meios de comunicação social merecerão mais respeito se desistirem de conceder leniência exagerada a certas figuras apenas porque bem postadas na estrutura administrativa do País. Refiro-me, especificamente, ao noticiário alimentado pelo estranho acordo em vias de celebração entre o deputado Ônix Loenzoni, hoje titular da Pasta da Cidadania, e o Ministério Público Federal. Toda a matéria divulgada parece ignorar o fato de que o Ministro confessou a prática do ato delituoso conhecido como CAIXA DOIS, mal instalado na Secretaria da Presidência da República. Não se justifica, portanto, registrar que o agente do fato admitiu agora ter praticado o crime de que é acusado. Agora ele apenas ratifica a confissão e propõe um acordo semelhante aos que na Idade Média levaram Martinho Lutero e Calvino a romper com a Igreja. Houve, sim, um crime e a confissão de sua autoria, faz mais de um ano. Hoje, considerar a proposta de acordo como admissão de prática delituosa é, no mínimo, um descuido que pode levar muitas pessoas a acreditar que não se trata de ato ilícito, punível pela ofensa ao próprio processo democrático. Não é menos que crime o que Ônix cometeu. Nem conta ele com alguma das circunstâncias que levam à inimputabilidade. Atento e esperto, o deputado não chegou aos postos – o primeiro que, mal desempenhado, fê-lo ganhar o prêmio de consolação no qual hoje está – ocupados, por absoluta ingenuidade ou aversão a condutas marginais à lei. Não chega a 200 mil reais o valor da indulgência proposta pelo Ministro da Cidadania, não devesse tal Pasta ser vedada aos que alcançam posto eletivo em absoluto desrespeito e agressão ao processo eleitoral. Algo semelhante a entregar o galinheiro à raposa. Nem causa perplexidade o acordo (mais grave, o diploma legal que o criou), diante da frustrada tentativa de assegurar a impunidade a gestores que desviarem dinheiro público a pretexto de combate à pandemia. Há quem, extremistas da não vontade, pensa ser legítimo tudo que é legal.

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