Lençol curto


Desembaraçadamente, o Presidente Jair Bolsonaro trata da reeleição – e só dela. Os compromissos de sua agenda revelam estar dedicado à campanha eleitoral de 2022, terceirizadas as decisões de todas as áreas, nenhuma delas desobediente do que imaginam desejo da autoridade maior. Civis e militares ocupam-se de dar sequência à agenda anunciada desde a campanha anterior, deixando-o livre para o jogo eminentemente e exclusivamente político de sua preferência. Aqui e acolá, ele tropeça nas suas próprias contradições, às vezes difíceis de ajustar-se à motivações que o animam. No caso, uma só: ver-se reeleito em 2022. Aumenta o risco, portanto, de reincidir em prática suficientemente conhecida dos brasileiros – desdizer à tarde o que disse na manhã do mesmo dia. É bem este o caso do programa Renda Cidadã, a segunda mexida no conjunto de ajuda financeira de Fernando Henrique Cardoso, sendo o Bolsa Família a ampliação e organização daquele. Ou seja, o mais do mesmo. Até aí, nenhuma originalidade. Em meio à mortandade pelo vírus amaldiçoado, e com a ajuda do modo errático como conduz(?) o País, Bolsonaro sai por aí, inaugurando obras deixadas pelos governos anteriores e revelando as relações perigosas em que costuma envolver-se. Leva para dentro de sua própria casa as mazelas que em geral preocupam e desgastam os que governam. Mas não é disso que ele gosta, diante da necessidade de manter clima de polarização e disseminação do ódio e da mentira. Esses são os ingredientes do seu estilo, no modelo nobiliárquico que imprime ao (des)governo. É como se à Rainha Elizabeth II fosse dado adotar um irmão para William e Harry. Casa e gabinete parecem uma só coisa. Mas não são! Por isso, coloca-se no centro do problema a questão de como satisfazer o populismo e o projeto pessoal da casa real, com a realidade chocante da casa das famílias brasileiras. Não há dinheiro para compensar novos benefícios aos mais ricos, ao mesmo tempo em que manter-se aproximando da proposta pertinazmente perseguida por Eduardo Suplicy. (Mais uma vez, a falta de originalidade!) Constata-se, então, que o cobertor é menor que o frio. Espicha-se de um lado, o pé fica a ponto de necrosar; puxa-se o cobertor mais uma vez e a cabeça fica sujeita às consequências. Nada disso interessa ao Presidente, porque é preciso satisfazer o centrão, o patrão estrangeiro com o mandato posto a prova, o apetite voraz do vírus chamado mercado e a mesa farta dos que devem bilhões ao Erário. Só os outros podem entrar em fria!...

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