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Legitimação de crime

Em interessante entrevista publicada em A Crítica (05-06/10/2024, p. A2), o sociólogo e professor da UFAM Fábio Candotti chama a atenção para a prática do linchamento, em Manaus. Estudioso do fenômeno da violência sob muitas de suas formas, o professor ressalta sobretudo a condição a que chegou a prática criminosa, aparentando legitimidade para muitos dos que se dizem civilizados. De tanto ser cometido, sem que as autoridades policiais revelem o empenho quanto à apuração do delito, o devido processo judicial e a punição dos responsáveis, o fenômeno conta com a leniência quando não com declarado apoio de parte da sociedade. O desinteresse policial e a tolerância social acabam por produzir a contrafação da Justiça, substituída pela figura do justiceiro. Aquele que aplica suas próprias regras na punição de supostos crimes cometidos por terceiros. Com frequência, os veículos de comunicação social dão preferência por condenar antecipadamente o acusado de crime menor, se comparado com o linchamento aplaudido. Pequeno furto, às vezes a frustrada tentativa de comete-lo, não raro têm dado causa ao linchamento. Alegar dificuldade na apuração desse crime é inadmissível. A participação de número indefinido de matadores não pode justificar a simulação de empenho no deslinde dos casos ocorridos, se de fato há inteligência (em qualquer dos sentidos que o termo possa ser utilizado) na ação policial. O sociólogo entrevistado lembra ser a maioria dos linchados de perfil coincidente com a maioria da população carcerária: pobre e preta. Enquanto a sociedade não resistir às mentiras propaladas pelos preconceituosos, dificilmente a Justiça será feita. Não serão os justiceiros os primeiros interessados em restaurar o império da Lei, forma até agora insuperável, para garantir o mínimo de tranquilidade reclamado pela população. Mais uma vez, à ausência do Estado deixa à mercê dos delinquentes a solução de problemas que das autoridades deve ser cobrada.

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