Lamentável e vergonhoso


Os adjetivos do título são apenas alguns dos termos, existentes ou por criar, capazes de qualificar o desqualificado espetáculo que a televisão pôs dentro de nossas casas, na tarde da última sexta-feira. O decano dentre os Ministros do Supremo Tribunal Federal proporcionou aos brasileiros uma aula prática que os melhores professores podem invejar. Se a peça jurídica elaborada por Celso de Mello credenciou-se à galeria dos documentos mais importantes da história do STF, a reunião dita ministerial ombreia-se com qualquer aula prática da disciplina Medicina Legal. Dizem-no a exposição das vísceras do governo, o mau cheiro das peças dispostas no balcão de exames e a indiferença própria e necessária dos necrófagos. Porque necrófilos. Nem falemos da nudez do morto - crua, oprobriosa, abjeta.

É lamentável constatar a convocação de uma reunião dos auxiliares imediatos de um Presidente da República, para tratar de tudo, menos das milhares de mortes que já se registravam, no 23 de abril nefasto. Enquanto se multiplicavam as mortes determinadas pela pandemia, mais morte era reivindicada pelo próprio (pasmem os que têm um mínimo de boa vontade!) Presidente da República. Para isso ele afirmou estar armando a população. No entendimento canhestro, insano, perverso daquela autoridade que não a tem, é matando que se evita a ditadura que ele, proclamando-se democrata, dá como objetivo dos que não comungam de seu apetite criminoso. Interessa ao Presidente, como aos que o aplaudem, não evitar as milhares de mortes ainda esperadas pela ação da covid-19. Não poderia ser diferente, nem algo razoável, esperar esforço sincero para conter o vírus. Afinal, 30.000 deixou de ser um número hipotético, tanto e com tal ênfase e ódio alardeado por ele. Mais absurdo que seja, tomar tal cifra por meta não estarrece mais ninguém.

Vergonhoso, foi também terrível o sinistro espetáculo cujo palco deveria ser reservado aos grandes momentos de exercício democrático. Pois lá é a casa dos que receberam o mais alto mandato popular, a figura-síntese representativa dos anseios e dos sonhos da maioria. Mesmo sem ser exatamente este o caso, visto que não alcançou 40% do eleitorado inscrito a votação de Jair Messias Bolsonaro, a legislação eleitoral assegurou sua chegada lá. Quem tenha assistido à gravação daquele vergonhoso evento, sem ter prévia informação poderia confundir-se. Ser levado a crer tratar-se de um esconderijo, onde conspiradores se reúnem para planejar o ataque à ordem jurídica, a ofensa a instituições republicanas, a eliminação dos divergentes.

Viu-se, inclusive, reafirmada a hipocrisia dominante nos círculos do poder, falsamente cultores de valores familiares e amor à Pátria. Como dizer às crianças de nosso humilhado e infelicitado país que palavrões não podem ser ditos a toda hora, em qualquer lugar e a todas as pessoas?

Não nos admiremos se, não tardará, um miliciano nos abordar na rua e, depois de praticar o assalto a que se acostumaram (eles, praticando-os) e nos acostumamos (inertes, calados, acovardados), exigir cantemos um louvor à tortura. Depois, o tiro de misericórdia...

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