Laboratório e emenda

Enquanto os laboratórios universitários oficiais se deterioram e seus profissionais são avacalhados e ofendidos pelas autoridades, vai-se revelando outro laboratório pouco promissor. Tantas são as pesquisas realizadas sabe-se com que denodo e esforço pelos cientistas brasileiros, quantas são as experiências desenvolvidas pelos profissionais da política e dos negócios,. Acumpliciados, como sempre. Refiro-me aos gabinetes e salões bem refrigerados, lugares prestáveis a toda sorte de maquinação, nenhuma delas obediente aos padrões mínimos exigidos por toda iniciativa racional. Por isso, até hoje não se conseguiu elaborar um projeto de nação digno de um país das dimensões do Brasil. Andamos às cegas, como se contássemos com a sorte ou o acaso para resolver todos os problemas que se apresentam a uma população de mais de duzentos e dez milhões de habitantes, ocupando um território continental, dotado de magnífica diversidade, seja natural, regional, populacional. Não obstante, parecemos entretidos na busca de resultados meramente ocasionais, façanha que qualquer ignorante poderia alcançar. Até o governo Lula, todos os ocupantes da principal cadeira do Planalto levavam consigo um título universitário. Com FHC, o título e a fama de bom intelectual. Foi, todavia, no governo do ex-operário que se discutiu com maior ênfase e insistência a necessidade de um projeto nacional. Que, diga-se a bem da verdade, os militares parecem ter procurado. Talvez até convencidos das virtudes de pôr de lado a contribuição da sociedade. Nas ditaduras é sempre assim. Chegada a Nova República, o mínimo que se poderia esperar era a superação desse obstáculo original e, agora se parece saber, intransponível. Não foi o que se viu, nem é o que se vê. O País parece, então, gigantesco laboratório, aberto a qualquer experiência, sem a necessidade de envolver o povo na construção de uma nação forte, respeitável e apta às tarefas e ações que sua importância no concerto internacional exige. Só um projeto de nação nos faria superar a aventura em que se têm constituído os sucessivos governos, capazes de enxergar a árvore, sem nenhuma ideia de que há toda uma floresta a considerar. Aqui posso até dizer que a devastação parece o destino de tudo. Concluo, apenas para dizer: sem projeto de nação, tudo o que vier não passará de remendo. Diz o dito popular que é frequente a emenda ser pior que o soneto.

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