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Justiça, nada mais!

Quando a pandemia entretiver os historiadores e os estudiosos o compararem a outros períodos da história universal, será difícil deixar de fora uma pergunta pouco lisonjeira quanto à espécie animal tida por superior. Será inevitável perguntar como, diante dos exuberantes avanços tecnológicos, perderam-se tantas vidas humanas. Chamará a atenção deles menos o caráter universal da covid-19, que a colheita da Indesejada, mesmo nas maiores potências econômicas do Planeta. São essas mesmas nações as que mais avançaram na criação de sofisticadas – e nem sempre úteis – tecnologias. É previsível o choque que os historiadores sentirão, diante de uma aparente contradição, destacada exatamente no contexto da tecnologia avançada. Como o homem já pisou na Lua e, através de mecanismos e máquinas altamente sofisticadas, vê perderem-se milhões de vidas semelhantes, acossadas por um micro-organismo ao qual se nega até a existência? Se, porém, a preocupação dos estudiosos transbordar do deslumbramento com tudo quanto não é tipicamente humano, será maior a probabilidade de encontrarem respostas mais próximas de descrever o momento de que somos testemunhas compulsórias, nenhum dos viventes alheio aos riscos que a minúscula ameaça a todos nos constrange. Talvez ocorra aos pesquisadores o desejo de estender seu olhar às condições criadas pelos próprios homens no afã de sobrevivência, este fenômeno de que nem as outras espécies animais conseguem escapar. Certamente se interessarão por saber das formas como os homens destes trágicos tempos estabeleceram suas recíprocas relações. Esperem-se, também, estudos relacionados à percepção dessa humanidade quanto aos bens – sejam aqueles de que a Natureza nos provê, sejam os outros que a mente e a mão do homem produzem. Como produzi-los, com que objetivos e quais os beneficiários da abastança que tais bens terão trazido à sociedade humana? Como todo pesquisador competente, legarão respostas consistentes e, em muito maior quantidade – porque para isso serve a Ciência – deixarão aos pósteros rico rol de novas indagações. Oxalá as gerações sucessoras tentem responder como e porque poucos desfrutam dos avanços e a tantos é negado o direito à alimentação. Talvez aí, então, surja o homem novo com que todas as gerações têm sonhado. É esse sonho que alimenta a utopia dos que não pedem mais que Justiça.

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