Junto e misturado

Dos infaustos dias vividos no último ano e dos que ainda viveremos, em função da pandemia, têm tratado profissionais dos mais diversos ramos. Em graus diferentes de compromisso com a saúde coletiva e o bem-estar da sociedade, cada qual apresenta interpretações que variam desde a profundidade conceitual à absoluta ignorância. Observa-se, então, uma profusão de alterações no significado de expressões, gestos, decisões e tudo aquilo quanto tem repercussão na vida social. Faz muito tempo, o empobrecimento da linguagem marca o exercício profissional de muitos analistas e pretensos formadores de opinião. Curioso é que, nesse processo acelerado de retorno à caverna, os novos significados parecem impor-se com veemência. Resulta disso o que se tem chamado pós-modernidade, uma espécie nem sempre velada de consagração da mentira, de que as fake-news dão o mais cabal atestado. Ainda agora, veem-se juntos e misturados os fatos a que se dá os nomes de mandato e mandado. A diferença de uma só letra não esgota a profundidade da mistura, nem exaure as possibilidades de aprofundamento da triste relação entre os dois termos. Isso explica os numerosos portadores de mandatos eletivos, em todas as esferas do poder, ao mesmo tempo algum dia destinatários de mandados judiciais. Alguns deles, encaminhados aos estabelecimentos prisionais. O mais recente engajado nessa trajetória, o Ministro Kássio Marques, dá a impressão de que tanto mais a população eleger os sujos, mais combatida será a corrupção. E se ele tiver razão? Pode ser: corrupta é a Ciência, que discorda dos que pensam ter poder, todo poder. Corrupto é o palhaço que desvela a nudez do rei. Corrupto é o que proclama a igualdade de todos, perante a lei, mas não só.

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