João do Rio, um homem múltiplo

Palestra que seria proferida no Seminário comemorativo do Dia Mundial do Livro*, Manaus, 2020.


Digo-lhes, em primeiro lugar, que conheci João Paulo Emílio Cristóvão (alguns aqui põem Alberto)[1] dos Santos Coelho Barreto, chamado apenas Paulo Barreto pelos leitores de jornais do Rio de Janeiro, com palavras de nosso saudoso amigo Óscar Ramos[2]. Foi dele a sugestão de tema para esta nossa (permitam-me chamar assim) quarta versão da Semana Comemorativa do Dia Mundial do Livro. Impossível desdenhar da proposta, partida de quem partiu, conquistador de nossa admiração e amizade, ao primeiro contato pessoal. Isso costuma acontecer quando se está diante de um ser humano de múltiplas virtudes e competências. Multiplicidade maior NESTA, estou certo, de que seus pecados. Porque pessoa alguma só traz com ela virtudes ou pecados. De outras multiplicações, como espero demonstrar, vocês saberão ao final destas pobres palavras. João do Rio e Óscar Ramos, múltiplos ambos.

Comecemos pelo começo.

Quando Paulo Barreto nasceu de um professor de matemática e uma dona de casa, fluminense o pai (Alfredo Coelho Barreto), gaúcha a mãe

(Florência dos Santos Barreto), na Rua do Hospício (hoje Rua Buenos Aires, no centro do Rio de Janeiro), n° 284, em 05 de agosto, a República ainda ia completar 2 anos. O menino foi batizado em um templo maçônico[3], sociedade a que pertencia seu pai, um positivista como boa parte dos seus contemporâneos. Há registros de divergência entre pai e filho, este contrário à ciência de Comte. Imagino os dois, Alfredo e seu filho, discutindo à mesa das refeições, onde se encontrava a família reunida, naqueles tempos.

O jornalista inovador pertencia à classe média, quando um professor do Estado assim era classificado e assim remunerado. Morto o irmão Bernardo Gutenberg, o filho mais velho tornou-se a preocupação única dos pais. E dos caprichos e esquisitices da mãe. Talvez à frente falemos de ambos – mãe e filho; caprichos e esquisitices de Florência.

Antes de completados os primeiros dezoito anos de idade, nossa personagem tinha publicado seu primeiro texto. O jornal de Alcindo Guanabara[4], A Tribuna editou a peça de crítica literária intitulada Lucília Simões, sobre uma peça de Ibsen[5], Uma casa de bonecas. O trabalho do dramaturgo norueguês era então encenado no teatro Carlos Gomes, no centro da cidade que depois seria chamada Maravilhosa.

A data, 01 de junho de 1899, é o início de uma vida por vários motivos – para usar a expressão de R. Magalhães Jr[6]. – vertiginosa. Poderíamos chamá-la, ainda, de uma vida plural, tantos os aspectos que merecem destaque na biografia de um dos maiores talentos jornalísticos que o Brasil dos fins do século XIX e início do século XX produziu.

Como ignorar o que os olhos e a perspicácia do observador carioca retinham e registravam? É dele, João do Rio, o livro Vida vertiginosa, publicado em 1911. A obra trazia 25 crônicas publicadas na imprensa carioca de 1905 a 1910. Diz CÂNDIDO[7] do interesse do jornalista pela vida apressada que a invenção dos veículos movidos a combustível determinava; pela imitação que a moda impunha. Corrobora a indicação do olhar diferente, percuciente e – quem sabe? – premonitório de João o cosmopolitismo apontado por PRYSTHON[8], quando destaca a obra dele como “um emblema desta época no país”.

Acrescento: vertiginosa, múltipla e curta – assim foi a vida de João do Rio. Tentaremos mostrar as razões dessa tríplice qualificação, ao longo desta conversa que espero não os entendie. Ainda que isso possa exigir muito mais que atenção, sobretudo paciência...

Se CÂNDIDO explora a diferença já notada pelo autor de Vida vertiginosa entre as formas de locomoção humana (charretes X automóveis), à outra estudiosa atrás indicada coube destacar o que afirma GONTIJO[9], ao considerar a observação do Rio de Janeiro, por João, como metonímia do Brasil. O Brasil recém-republicano tratava de modernizar-se.

Há muito fundamento no comentário de GONTIJO, quando lembramos de que a PEREIRA PASSOS, o responsável pela operação Bota-abaixo na antiga capital da República, correspondiam EDUARDO RIBEIRO, em Manaus, e ANTÔNIO LEMOS, no Pará. Outras cidades brasileiras terão passado pelo mesmo processo, mas para efeito de nossas discussões basta mencionar os que nos dizem mais respeito, amazônidas que somos.

A vertigem encontrada pelo escritor cearense na vida de João do Rio talvez se deva às escolhas pessoais de Paulo Barreto. Testemunha do que então se chamava – ele, também – operação “Bota-abaixo!”, enquanto assistia à urbanização das ruas centrais da cidade em que nascera, nosso homenageado não deixou de sofrer a influência do ambiente e da paisagem que conhecia muito bem. Tal conhecimento não resultava de olhar indiferente ou alienado; vinha de seu próprio jeito de ser, um flâneur[10]como o registram todos os autores, pelo menos aqueles em que fui buscar material para o texto que vocês me dão a honra de ouvir.

Falemos, portanto, do universo acanhado por mim percorrido, antes de penetrar nos becos e vielas, avenidas e ruelas pisados pelos pés de um dos maiores cronistas do jornalismo brasileiro.

Há razão, penso eu, para Juliana Santiago Gontijo dizer ter sido João do Rio o repórter mais expressivo no início do século XX, no Rio de Janeiro.

Meus guias iniciais suponho estejam aqui representados, pessoal e integralmente ou por um dos dois que elaboraram o texto O flâneur e a rua: associações entre a crônica narrativa de João do Rio e a crônica visual de Otoni Mesquita. Refiro-me a GUILHERME BENTES DA SILVA e MARIA EVANY DO NASCIMENTO.[11]

No artigo apresentado por ambos encontrei as primeiras pistas para seguir o autor dotado do que JÚLIA O’DONNELL chama temperamento etnográfico.[12] A partir desse ponto, identifiquei em sebos cadastrados no Google onde poderia encontrar pelo menos parte da extensa produção jornalística e literária do flâneur, um dândi[13] também. Pude, então, compor bibliografia que, por extremamente humilde e escassa estará longe de esgotar o tema. Não me deixou e espero que não os deixará, todavia, no reino da ignorância absoluta sobre o homem de quilométrico nome, extenso por necessidade: para conter a riqueza que foi sua passagem pela Terra.

A primeira leitura se fez, obviamente, sobre páginas de autoria do cronista fluminense. Páginas que me pareceram as de maior divulgação. Talvez pelo nome sugestivo (A alma encantadora das ruas, Companhia de bolso, 2008). A segunda leitura correspondeu a livro que reúne contos escritos por João[14]. Lidos os textos criados pelo autor de quem tratamos, era chegada a hora de saber o que dele se dizia e o que dele se diz. E lhes asseguro que muito ainda se dirá...

Aí já era pertinente ler os biógrafos do flâneur. Comecei pelo João do Rio, que a Agir incluiu na coleção Nossos Clássicos, escrito por RENATO CORDEIRO GOMES.[15] Só depois fui ao livro de MAGALHÃES JR., de todos o mais extenso – 382 páginas. A abordagem antropológica acima insinuada (De olho na rua) e João do Rio uma biografia completaram o cardápio desse caudaloso e suculento ágape literário. Caudaloso e suculento, para mim, que era jejuno no assunto.

Não sei se lhes vou oferecer resultado apreciável da refeição espiritual, ou se acabarei por causar-lhes azia e enjoo. Daí pedir-lhes antecipadas desculpas. Dizendo, todavia, que em mim o efeito apenas foi o de causar maior fome... É preciso ler mais de João do Rio!

Buscarei, com o pouco que sei de João Paulo Emílio Cristóvão (ou Alberto?) dos Santos Coelho Barreto, desenvolver exposição sobretudo destinada a justificar por que o tenho como uma personalidade múltipla, tantas as facetas de sua vida.


A PESSOA

Criado em família da classe média, não é de admirar nem decepcionar o esforço de João por subir na vida. É quase sempre assim que se comporta essa classe social, durante séculos mantida entre o autoritarismo dos de cima e as desconfianças dos de baixo. Exatamente neste momento, não trato de indivíduos de per si, porque os há destoantes dessa regra. Refiro-me ao projeto de vida de uma pessoa específica, sendo ela um homem preocupado com galgar sucessivos patamares na vida social e econômica. Específica, mas cujos conduta e atos, práticas e propósitos são característicos da classe social a que pertenceu. Também e sobretudo, um observador contumaz e dedicado de tudo quanto à sua volta ocorria. Assim foi o filho de Alfredo e Florência.

Mulato por herança da mãe; geneticamente (se não exagero) vocacionado a acumular gorduras no corpo, criado com o mimo que se atribui – nem sempre com justa razoabilidade – a todo filho único; erudito às vezes chegando às raias do pernosticismo, polêmico e elegante no trajar, tratava-se de um exemplar humano no mínimo interessante. Diferente, com certeza! A essas condições, João do Rio somava uma que somente neste início de terceiro milênio começa a ver reduzido o preconceito por ela enfrentado: a homossexualidade. Imagine-se o que deve ter sido a vida do cronista! Mas ele era, igualmente, irônico, não fosse isso apanágio de que desfrutam as pessoas inteligentes. Os escritos dele e as polêmicas em que se envolveu, frequentemente por provocação dele mesmo, dizem-no melhor.

Não faltou ao autor de A religiões do Rio de Janeiro o desejo de ingressar na Academia Brasileira de Letras. Tanto, que concorreu por três vezes ao fardão, não sem o registro de uma estranha coincidência, sendo ele o primeiro a envergar o traje oficial dos acadêmicos. O que caberia melhor sobre o corpo de um dândi?

Antecipo, aqui, um dos fatores que me levam a tê-lo como um homem múltiplo, porque também multiplicaram-se as tentativas de sentar ao lado de Machado de Assis, Olavo Bilac, Coelho Neto, Félix Pacheco, Sílvio Romero, José Veríssimo e tantos outros literatos, afora os que nunca haviam escrito algo que se pudesse considerar literatura. Mas estavam lá...

Depois de concorrer a vagas abertas em 1906 e 1909, Paulo Barreto chegou ao (quase dizia de) fardão em 2010. Na primeira, foi vencido por Heráclito Graça, tio do já famoso Graça Aranha. Venceu-o, na segunda, o Barão de Jaceguai, Artur Silveira da Costa, herói da Guerra do Paraguai, que muitos dizem sem - a guerra, não o acadêmico - nenhum heroísmo. O derrotado, após as duas tentativas frustradas de João foi um xará, João Pereira Barreto. Barretos diferentes.

As tratativas e negociações envolvidas nas campanhas pelo voto dos eleitores-acadêmicos são contadas com minúcias por Magalhães Jr. Não as trago aqui, pelo que têm em comum com práticas ainda hoje vigentes em muitas entidades, literárias ou não. Também por ver no biógrafo uma tendência ao preconceito, às vezes até à escatologia. Para lhes poupar da informação de que Magalhães Jr. pareceu-me satisfazer-se com fofocas e aspectos duvidosos da vida de seus contemporâneos ou não. Uma espécie de Sônia Abraão[16] avant la lettre. Esta particularidade (o interesse pela miudeza) não invalida nem anula, a meu juízo, a contribuição de MAGALHÃES JR. ao conhecimento da obra e de seu autor. Apenas exige atenção do leitor.

À certa altura do meu passeio pelas páginas, parecia-me acompanhar um pedestre convicto, que aproveitava a madrugada para suas incursões, inocentes ou tidas por pecaminosas pelas ruas do Rio em liquidação. Uma cidade que se aprestava a ser “moderna”, “civilizar-se”, ajustar-se, enfim, ao que as cidades europeias vinham fazendo. E que, em ações dirigidas pelo Prefeito Pereira Passos, realizava o “Bota-abaixo” do qual resultou a Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, e adjacências.


TERRITÓRIO LITERÁRIO MÚLTIPLO

A capacidade de multiplicar-se de João do Rio é encontrada com facilidade nas espécies literárias em que foi produtivo. Pode-se falar dele como cronista, um dos mais festejados do Rio da belle époque, como se pode discorrer sobre suas peças teatrais. Também não faltam na sua bibliografia contos bem conceituados e reportagens, traduções e ensaios, crônicas sociais e crítica literária e romance. Todas trazendo a marca de seu talento e de sua ironia, de seu temperamento etnográfico quanto de sua preferência pela polêmica. Não raro, levando-nos a identificar já naquele tempo o aluguel da pena dos que sabiam escrever. E tinham espaço nos jornais então editados. Cartas por ele escritas aos amigos ou a autoridades podem sugerir seu interesse pela literatura epistolar.

Comecemos pelas crônicas, textos que se tornaram mais conhecidos e em geral são os mais frequentemente mencionados. Basta dizer que muitos críticos incluem o jornalista de quem lhes falo dentre os melhores cronistas brasileiros do século XX, ao lado de outros que vieram depois e fizeram semelhante fama: Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Rezende, Paulo Mendes Campos, Nélson Rodrigues e, pouco antes dele ou contemporâneos dele, Machado de Assis e Lima Barreto. Este sendo tido por muitos como o mais importante daquele interregno temporal.

Da obra mais conhecida (A alma encantadora das ruas) podemos destacar as crônicas que trataram do que ele chama Pequenas profissões – o cigano ledor de mãos, o catraieiro, o tatuador, o vendedor de folhetos, os músicos ambulantes. Ou, quando trata dos Três aspectos da miséria – as mariposas de luxo, os estivadores e carregadores, as mulheres mendigas, as crianças mendigas. No capítulo Onde às vezes termina a rua – a vida de presidiários e as razões por que estão nas penitenciárias.

Em todos os casos, manifestação da sensibilidade e da aguçada percepção das relações humanas numa cidade em apressada transformação, o que levou a antropóloga JÚLIA O’DONNELL a identificar em João do Rio certo temperamento etnográfico, em livro ligeiramente mencionado acima.

Nos contos, é numerosa a citação de dois, pela maioria dos que apreciam a obra de João como contista: O bebê de tarlatana rosa e O homem de cabeça de papelão. Encontramo-los na antologia publicada em 2009, pela Editora Lázuli[17], nos capítulos Dentro da noite e Rosário da ilusão, respectivamente. Registre-se a parceria com Viriato Correia, que rendeu o livro de contos infantis Era uma vez..., editado em 1909.

Peças teatrais também foram escritas e levadas à cena. As mais mencionadas, pelo menos nas fontes a que tive acesso, são A bela Madame Vargas (1912) e Clotilde (1906). A primeira delas foi rebatizada. Seu novo nome: A última noite.

A crítica literária se expressa em publicações como O momento literário, inclusivo de 28 entrevistas antes publicadas em coluna do mesmo nome, no jornal Gazeta de Notícias. Nelas, emite opiniões sobre teatro, artes plásticas, música, literatura. Um de seus biógrafos, Magalhães Jr. insinua terem as matérias baseado a campanha do autor para chegar à Academia Brasileira de Letras.

Oscar Wilde, o romancista e dramaturgo irlandês/inglês[18], teve traduzido por João do Rio seu mais famoso romance, O retrato de Dorian Gray. Outro romance, Intenções, e a peça Salomé são outras das obras do escritor britânico traduzidas por João do Rio.

Constam de Na conferência da paz (1920) as reportagens feitas sobre o fim da Primeira Grande Guerra. O autor foi à Europa, à época da celebração do Tratado de Versalhes.

Como muitos de seus contemporâneos[19], Paulo Barreto redigiu textos do que, mais tarde, se chamaria crônica social – notícias e opiniões sobre atividades mundanas, de que Zózimo Barroso do Amaral, Jacintho de Thormes, Ibrahim Sued e Carlos Swan foram mestres, em outras fases da vida do Rio de Janeiro. Este é gênero ainda presente na imprensa brasileira, sendo que nesta cidade nele se destacaram Nogar, Ana Maria Silva, Epami, Denise Cabral dos Anjos, Carlos Aguiar e César Seixas. Ainda há cronistas sociais, de que são exemplos Júlio Ventilari, Guto Olveira, Alexandre Prata, Fernando Coelho, Mazé Mourão, Baby Rizzato e Sérgio Frota. Rogério Pina e Hermengarda Junqueira poderiam ser mencionados dentre eles, mas suas colunas trouxeram ou trazem informações que avançam um pouco em áreas de atividades que, sendo mundanas registram assuntos de outros campos da atividade humana. Turismo, política e cultura, em especial. No passado e levando em conta certo aspecto muito particular, vi inspiração de Paulo Barreto na coluna mantida pelo colunista social GILBERTO BARBOSA[20], durante muito tempo, no jornal amazonense A CRÍTICA. O uso farto de palavras da língua francesa, por exemplo.

Informa-se que o uso de vários pseudônimos por Paulo Barreto/João do Rio é coerente com a produção atribuída ao autor de que nos ocupamos: teriam sido mais de 2.500 textos, em 39 anos de vida. A ocultação do nome real dos escritores e jornalistas era comum. Mas nem sempre conseguiram cumprir seu papel de biombo.

Chama bastante a atenção do leitor a obra As religiões do Rio de Janeiro, na qual sobressai o temperamento etnográfico identificado por JÚLIA O’DONNELL. Neste caso, estamos diante de um trabalho que, aparentado de boa antropologia, se constitui num ensaio sobre o tema, afeito aos profissionais da área em que a autora de De olho na rua é autoridade. Muitos veem nesse trabalho importante precursor de obras antropológicas, aproximando João do Rio e vinculando-o a autores de renome, como Gilberto Freyre, Franz Boas, Radcliffe-Brown.

Vejamos como a historiadora e mestra em Antropologia do Museu Nacional vê a obra de João do Rio, ao justificar em sua tese de doutorado na qual ela mesma

...estabelece um diálogo com textos clássicos dos estudos urbanos e da problemática das sociedades complexas para abordar a obra de João do Rio como uma etnografia do Rio de Janeiro no período de sua urbanização”.[21]

Não é diferente o sentido do que afirma GILBERTO VELHO, ao prefaciar esse interessante trabalho de Júlia. Leia-se o último parágrafo do texto que o festejado antropólogo brasileiro redigiu:

“De olho na rua é, portanto, uma preciosa contribuição aos estudos urbanos, através de um feliz encontro entre antropologia, sociologia e história. Certamente será uma referência para toda a área interdisciplinar”.[22]

Se não é menção direta ao texto de João do Rio, é pelo menos o reconhecimento indireto da utilidade do trabalho analisado pela colega, para o campo daquelas três importantes ciências sociais.

A Comissão de História do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro consagrou As religiões do Rio de Janeiro como o único em seu gênero na literatura brasileira.[23] Era o ano de 1905. A importância dessa obra, portanto, atravessa mais de um século. Observe-se que dela disseram bem intelectuais afamados do sec. XX (Sílvio Romero e Leite Velho) como o disse mais recentemente a autora de De olho na rua.

Seria imperdoável lacuna omitir a passagem de João do Rio, quando ele ainda era um garoto, pelo jornal estudantil O ensaio. Ele tinha então 13 anos e se anunciava com pendores para o jornalismo e, como anota João Carlos Rodrigues, escrevia

...eu escrevi solene entre outras coisas congêneres, como fecho de ouro de trabalho magistral – a mosca é o exemplo da volubilidade humana.


Por pelo menos duas razões registro isso aqui. A primeira delas é a iniciação jornalística de Paulo, em jornal de estudantes. Muitos dos seus contemporâneos – e outros bem depois – iniciaram-se nesses jornaizinhos, quase de brincadeira. Inclusive este cansativo contador que vocês ouvem com generosa paciência.

A segunda coisa a destacar é a semelhança, em espiritualidade e contundência, com Nélson Rodrigues. Do autor de Vestido de noiva” e A

vida como ela é” são as frases (quase máximas) Nem toda mulher gosta de apanhar do seu homem - só as normais; O brasileiro tem complexo de vira-lata.</