Jato sem ódio

O clima de polarização exacerbado, tímido mas existente no governo Lula, e aprofundado e ampliado sob o atual governo, é item importante das muitas agressões à democracia. A participação de lulistas enlouquecidos e ensandecidos bolsonaristas na cena política não tem feito menos que impedir o necessário e exigível debate. Este só se faz legítimo quando os debatedores estão dispostos a escutar e refletir sobre o que lhes é dito.

Até agora, a audiência de um lado e do outro não tem ido além da sensação meramente auditiva. Todos ouvem, ninguém escuta o que o adversário diz. De reflexão não se pode falar, eis que pretextos, desculpas e, eventualmente, argumentos apresentados parecem não chegar ao cérebro dos debatedores. Quando eles o têm em pleno funcionamento.

Sim, é tamanha a paixão doentia animadora das discussões, que raramente deixam a menor possibilidade do confronto de ideias. Disso decorre o palavreado predominante, em que não faltam sequer palavrões próprios à zona do meretrício. Com perdão das e dos que lá exercem sua profissão e vão buscar a satisfação de outros apetites. Não é só lá, porém, que tais palavras enchem a boca das pessoas, ocupem elas posição importante na vida nacional, ou não.

O resultado imediato dessa conduta é a transferência interminável da solução dos problemas com que todos nos defrontamos. Com um importante agravante – o alastramento da discussão inútil, improdutiva, para todos os setores e todos os níveis. Fica, assim, a sociedade impregnada do clima de Fla/Flu, com o ódio consagrado como inspirador de toda palavra e de toda conduta.

Um dos exemplos do prejuízo causado vem da crença de que as leis naturais podem servir de modelo. Sendo assim, poderão ser aplicadas às relações sociais. Talvez porque a lei da selva prevalece nas relações econômicas, não se vê interesse em compreender os problemas sociais e as idiossincrasias neles envolvidos. E respeitar- ou alterar, pelo processo próprio das democracias – as leis feitas pelos homens.

Criticar quem rejeita a manutenção dos procedimentos - e consequências deles – da Lava Jato, mesmo se criminosos, dá bem a medida da gravidade de nossa crise. Qualquer cidadão incomodado com a corrupção e sem dela tirar qualquer proveito, empregará apoio ao cumprimento de seus objetivos. Mas só os que realmente rejeitam a corrupção exigem da Lava Jato o estrito respeito às normas legais. Os outros talvez esperem um dia ver-se beneficiados de anulações devidas ao desprezo pelas leis.

Não se trata apenas do aspecto moral. Trata-se, sobretudo, do risco da anulação de decisões resultantes de práticas ilícitas, muitas já conhecidas e outras a conhecer. Não se sabe com que extensão e gravidade.

Se, do ponto de vista moral, não pode o sujo maldizer do mal lavado, do ponto de vista jurídico todo cidadão ficará exposto à injustiça praticada a qualquer um, a pretexto de punir a corrupção. E, uma vez cumprida com austeridade e justiça a missão do Poder Judiciário, tudo ficará como está. A anulação do processo se imporá.

Lavar, sim! Não com jato de ódio e do anti-Direito!

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