Janela reaberta

Os dias comemorativos das mais diferentes profissões, se atendem sobretudo aos interesses comerciais, devem ser aproveitados para pôr em evidência as peculiaridades da atividade a que se relacionam. Hoje, são os professores, categoria à qual dediquei boa parte da vida, o alvo da comemoração. As expectativas do comércio certamente não serão suficientemente atendidas, porque a covid-19 o impede. Mas não é apenas o vírus o responsável pela frustração. Acrescenta-se à pandemia a ameaça da inflação, que já bate à porta de todos. Maiores, porém, têm sido as frustrações impostas aos professores, inclusive com o cancelamento de conquistas alcançadas à custa de muito sacrifício e luta. Enquanto se elogia a educação de outros países e se finge desejar que o Brasil chegue ao mesmo nível, aplaudem-se (quando isso não é reivindicação vigorosa de certos setores) medidas prejudiciais à educação. Em todos os níveis, como só não sabem os ignorantes por opção. É comum ouvirmos e vermos pessoas reverenciando o Japão, onde apenas os professores merecem cumprimento diferenciado do Chefe de Estado. A explicação é simples, diria até trivial: nenhum profissional dispensa a contribuição do professor, qualquer que seja a profissão exercida. Lembrando conhecida fábula, o alfabetizador, o primeiro a educar as crianças, é quem se encarrega de tirar o analfabeto da caverna. Pois é na alfabetização que se inicia a trajetória escolar, razão suficiente para atribuir aos alfabetizadores o melhor nível de remuneração da categoria. O mundo se abre para as pessoas quando o educador abre os olhos da criança, pondo luz para toda a vida. Em seguida, tudo é acumulação de conhecimento, porque a revolução ocorreu antes, na alfabetização. Não fica no desdém com que as autoridades tratam os alfabetizadores, o sofrimento dos profissionais do magistério. Nos outros graus de escolaridade as dificuldades não são menores. Talvez até sejam maiores e mais graves do que as dificuldades dos alfabetizadores. Porque, à injusta remuneração acrescenta-se a escassez de recursos, em muitos casos negados pelos gestores financeiros. Isso tem levado à deterioração e obsolescência de equipamentos, quando não à omissão responsável pela desatualização dos laboratórios e outros setores auxiliares da educação. Esta, porém, é apenas uma das faces da tragédia vivida pela educação e pelos educadores, cujo protagonista é o professor. Se olharmos para o ambiente social em que o processo educacional transita, aí então a situação assume aspecto mais dramático. Ao mesmo tempo em que se negam recursos para a educação pública, inventam-se mecanismos de transferência de expressivas cifras para as empresas de educação. Mais, a tentativa de intervenção direta nas universidades públicas anuncia o propósito de aparelhá-las ao poder, tornando-a correia de transmissão e caixa de repercussão do Executivo. Mais grave, ainda, a tendência de assemelhar instituições educacionais a estabelecimentos militares, onde a hierarquia, não a disciplina metodológica, é desejável. A aprovação, pelo Poder Judiciário da obrigatoriedade de nomear o candidato a reitor primeiro colocado em lista votada pela comunidade acadêmica, ainda que seja apenas um passo, por sua importância deve significar (e anunciar) o permanente respeito pela autonomia que a Constituição consagra. Uma janela, mas essencial à educação superior, em sua tarefa de ver e dar conta do mundo.

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