Isolamento

Em sã consciência, não se pode dizer que o Brasil e seu governo foram hostis ao isolamento. Embora a sadia consciência esteja cada dia mais distante de nossos líderes e governantes, haverá de ser reconhecido o fato de que o objeto do isolamento é que faz a diferença. Contrário às providências e recomendações baseadas no conhecimento e na Ciência, o governo brasileiro nem por isso deixou de manifestar, por atos tanto quanto por palavras e decisões, simpatia pelo recolhimento. Não (e isto é tão ululante quanto o óbvio proclamado por Nélson Rodrigues), o isolamento protetor contra a covid-19. Isso contrariaria os ideais, valores e interesses propulsores dos atuais governantes. Chegaremos nas próximas horas a seis vezes a quantidade de brasileiros que o Presidente Bolsonaro gostaria de ver mortos pelos seus heróis. Tem, talvez, razões para vangloriar-se. Ustra terá sido fichinha, folha pálida de (maus) serviços a pátria. O discípulo e idólatra superou o mestre e ídolo. O isolamento se fez para muito além do que se poderia imaginar. Hoje o mundo todo nos renega, as exceções apenas reafirmando a cumplicidade e a comunhão de interesses, valores e ideais que anima os respectivos governantes, espalhados pelos continentes. Irmãos xifópagos, de xifoide multiplicada. A ausência do Brasil na reunião convocada pela ONU para discutir pauta ambiental é produto da decisão isolacionista do governo. Décadas levou a conquista da posição privilegiada a que chegou a nação. Colocamo-nos dentre as mais importantes economias, ao mesmo tempo em que adquirimos crescente prestígio internacional. Dois anos bastaram para tornar-nos párias da sociedade globalizada. A tal ponto nos trouxe a política da morte e do isolamento, que de nada vale o peso que o País joga no clima do Planeta. De protagonistas passamos a indesejados. Da liderança transitamos para a exclusão. Dói mais saber que isso resulta de uma escolha. De quase 60 milhões de brasileiros.



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