Intuição

Leio com certa apreensão e dúvida texto elaborado por José Luís Fiori, que reputo excelente analista e sagaz observador da História. Recentemente, entretive-me na leitura de ensaio em que o lúcido cientista percorre vários países americanos, em especial acontecimentos que me pareceram despertar enorme esperança no analista. Como o anúncio de que ocorre certa onda capaz de colocar no governo desses países algo diferente da que testemunhamos no Brasil, com lúgubre previsão de que esta prosseguirá. Ou seja, o que parece uma onda que reconduzirá os outros aos rumos menos obscuros e pesados aqui poderia ser replicado. Nada do que afirma Fiori, em relação à história recente de Bolívia, Peru, Argentina, México, Chile, Equador, mesmo os Estados Unidos da América do Norte, foge à realidade. Em todas essas nações, governos tendentes à direita foram substituídos, o povo fazendo-os retornar à incipiente e claudicante caminhada para situação menos hostil aos interesses dos respectivos povos. Em alguns, antes mesmo de Donald Trump ser posto fora da Casa Branca. O que significa dizer que nesses países não foi a derrota de Trump quem ditou o rumo. Houve, portanto, resistência interna, antes que a caneta de Joe Biden pudesse dificultar a ação da direita. O que me preocupa, portanto, não é a constatação do que o historiador nos comunica, mas as condições reais de o Brasil seguir na mesma direção. Fazer retroceder a marcha batida em direção a um regime de direita sombrio, aproximando-se cada dia mais de um Estado policialesco. Nesse sentido, e pelo andar da carruagem, estamos muito mais para o Haiti de François Duvalier que para o Chile – já não digo nem de Allende – de Frei. O ditador haitiano me vem à mente, pela semelhança das práticas lá adotadas durante seu governo, relativamente às que vemos serem aqui implantadas, de que o noticiário de todo dia nos dá fartos exemplos. Não tenho suficiente conhecimento para dizer da qualidade das elites desses outros países, mas creio conhecer o bastante das nossas elites, sendo eu membro do setor acadêmico delas. Como o é o próprio Fiori, sem que isso pese em sua percepção dos fenômenos por ele estudados e sempre tão bem analisados. Tento seguir-lhe a trilha, fugindo à ação em causa própria ou à adesão ao que, do ponto de vista de classe, me faria mais farto. A consciência e a experiência, porém, conduzem-me a uma posição no mínimo progressista. Comparem-se as decisões dos países, aí incluído o Brasil, sobre temas dos mais relevantes, como a distribuição da riqueza acumulada durante séculos, o aborto, a proteção social etc. O imposto sobre grandes fortunas, a legalização do aborto em favor da vida da mulher adulta, a renda mínima lá deixaram de ser tabus. Em nenhum desses países se verifica alguma intenção, débil que seja, de constituir guardas pretorianas, cuja raiz está nas milícias ora estimuladas. Quê dizem nossas elites, a respeito? Além do grave e pesado silêncio, participam desenvoltas e vorazes, do conluio que cada dia nos empurra em direção ao abismo. Por mais otimista que sejamos, nunca será demais ler nas entrelinhas, ouvir estrelas (nem todas, é claro!) e levar a visão até aonde ela não alcança. Não faltam motivos.

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