Insensatez sem limite


Às vezes recuso chamar de insensato quem por ambição, ou seja lá que outro vício, age contra o mínimo bom senso. O tal senso comum. Ou porque veja certo juízo como concessão à impunidade do agente, ou porque veja o cálculo sobrepondo-se à insensatez, imagino que se trata de motivação sórdida, inadmissível nos que se apoiam em dois pés e têm o aspecto do ser vivo chamado humano. É assim a realidade com a qual convivo, às vezes alterada pelo que muitos enxergam como exagerado otimismo. Sei, porém, a quantas oscilações estamos sujeitos, otimistas ou pessimistas, esperançosos ou desesperados. Imagino, porém, quão desagradável seria o convívio, se nos parecêssemos uns aos outros, em tudo e sempre. Para isso somos capazes de inventar robôs, estágio a que ainda nem todos alcançamos. Há muitos que sequer desejam isso para si mesmos. Outros, ao contrário, lamentam a impossibilidade atual de chegarem a esse estado. Passem bem!

Faz pouco mais de 48 horas, assistimos a cenas reveladoras da insensatez reinante. Delas participa ativamente o Presidente de uma república marcada por extrema desigualdade, onde 211 milhões de seres humanos (uns mais que outros) tentam sobreviver com dignidade. Sei que a última virtude mencionada permite enorme grau de variabilidade. Até de definição, se duvidarmos. Em que pese inegável relação entre dignidade e desigualdade, o normal é ver descoladas uma da outra. Com o que resulta confusão que faz indignidades aparecerem envolvidas por estranho mérito e desigualdades serem toleradas como algo normal, exigível, até.

Para complicar as confusões caraterísticas destes sombrios dias, acha um vírus coroado de espalhar-se pelo Mundo. Lá somos nós, tranquilos com nossas mazelas particulares e nossas peculiaridades territoriais, pegados de surpresa, como costumam alegar os cegos porque não querem ver, os surdos por conveniência e os ignorantes por opção.

Pois é dentro dessa indesejável moldura que vemos o Presidente da República invadir (sim, a audiência com Toffolli não foi pedida antecipadamente) o Supremo Tribunal Federal, liderando um lobby que reivindica o direito de morrerem – os outros, não os integrantes da marcha sobre o STF. Isso tudo, quando a covid-19 alcança o primeiro milhar de mortos no País.

A morte, por enquanto, sabemos ser o fim de todos nós. Por causas naturais. Para as causas às quais podemos relacionar o vírus, todavia, não pode ser estendida a mesma sentença. O que importa dizer da possibilidade de, como qualquer doença, ser evitada. Na frustração da prevenção improvável ou impossível, a opção sensata é a redução do número de vítimas. Ou, mesmo isso não sendo totalmente alcançado, a minimização das consequências.

Isso tudo, porém, exige grande dose de bom senso, sensatez. Neste aspecto particular, a indesejada visita da comitiva presidencial à sede do STF orientou-se por um lema que se torna mantra, até nas ruas: a vida ou a bolsa! Já se sabe como isso termina: uns levarão a bolsa, outros terão levada sua vida. De outro ponto de vista, deixa à mostra a escassa compreensão dos mais importantes protagonistas das lamentáveis cenas. O Presidente da República não sabe o que é uma república, no mesmo grau de ignorância que cultiva a respeito da democracia e do Estado de Direito. O Presidente do STF não tem a menor noção do papel que lhe cabe, como dirigente do órgão máximo da estrutura jurídica do País. Não comentarei sobre a coorte de seguidores do Presidente, porque deles não se pode exigir que conheçam mais do que contêm seus livros preferidos, se não exclusivos – o diário, o caixa e o razão.

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