Indignação e alívio

Felizmente, o alívio é maior que a indignação. Sem que esta perca um só dos graus acumulados diante do que temos vivido. A certeza de que não basta a primeira dose para tirar-me da alça de mira do vírus e de todos os vermes alistados no cortejo macabro, é menor que minha esperança. Esperarei os 60 dias prescritos, porque prefiro afastar-me da ignorância e festejar a vida, ao invés de reverenciar, prestigiar e submeter-me à indesejada. Minha presença na escola não foi acidente, nem obrigação. Apenas a oportunidade de fugir das trevas onde vivem e sobrevivem morcegos atentos às jugulares humanas, o sangue alheio a despertar-lhes apetites. Afinal, a indignação não é artigo fácil, pois seu preço é pago com a moeda chamada dignidade. Mantê-la, vê-la crescer embora a preferência pela ausência de motivos, não é problema. Nem mal me causa. Compensa a conduta abjeta dos morcegos, visto o mundo posto de cabeça para baixo (ponta-cabeça, dizem outros), o salva-vidas servido por fina cânula. Dela escorrem as poucas gotas, despertadores atentos à torpe habilidade do vírus e seus serviçais. O resto, meu organismo e minha compreensão das coisas do mundo, suas gentes, seus tempos e sentimentos o dirão. Melhor seria não ver miséria no mundo, não por cegueira premeditada; não ouvir o clamor da fome, do desemprego, da exclusão, sem precisar de fazer-me surdo; dispensar o tato do toque dolorido, porque rugas e rusgas estariam ausentes do ambiente; bons os sabores em minha boca postos, o peixe em postas bem cortadas, as carnes e seus cortes cozidos , fritos ou assados. Se as narinas conseguissem ignorar a purulência e odor resultante do que pode e produz a violência. Indignar-se, portanto, é preciso. Tanto quanto oxigênio sonegado, o leito hospitalar não-instalado, o servidor público enxovalhado, o charlatanismo virulento estimulado. Todos causa e consequência, trágico incesto, redução da vida como obra-prima de toda insciência. O homem ainda vivo tratado como resto. Bem-vindo alívio, fonte e regente de crescente dignidade, chama ardente a incendiar corações, despertar mentes, espaço aberto ao voo em direção incerta, mesmo sabendo não ser a morte a meta.

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