IN PRINCIPIO ERAT VERBUM (Jo 1,1) OU SOBRE A BELEZA DA TEORIA

Atualizado: Fev 15

José Alcimar de Oliveira*


01. No reino do negacionismo e da ostentação da ignorância arrogante alçou-se a estatuto de regra a demonização da teoria. A postagem converteu-se em critério de verdade. É tudo muito rápido. Caiu no esgoto, em que hoje a mentira programática transforma e tolda boa parte das redes sociais, é peixe. O velho Sócrates, e a quem interessar posso disponibilizar o WhatsApp dele, reconhecia diante dos seus acusadores “que não se tenha por difícil escapar à morte, porque muito mais difícil é escapar à maldade; ela corre mais ligeira que a morte”. Devemos a Sócrates o cultivo da única ignorância que possui estatuto epistemológico: a ignorância que reconhece os limites do saber humano. Este princípio socrático mereceu um belo estudo, intitulado De docta ignorantia (Sobre a douta ignorância), do pensador Nicolau de Cusa (1401-1464), lá pelos finais da chamada Idade Média.

02. Sócrates e Nicolau de Cusa merecem ser revisitados nesses tempos sombrios e presididos pelo obscurantismo. Como pensar dá trabalho e exige a chamada paciência do conceito (Hegel), o indivíduo recorre, célere, ao que já está mastigado. Peirce faz incômoda advertência aos que optam por uma filosofia mastigada. Estes terminam, na sua pressa e na inconsciência própria ignorância, ou mesmo má fé, por ingerir alimento estragado. Dentre as muitas mercadorias produzidas pelo mercado pós-moderno ainda não se encontra filtro cognitivo com efeito imediato. E não creio que se produzirá nos tempos próximos. Vacina contra o coronavírus já há várias. A única vacina contra o vírus social da ignorância já existe desde os tempos da Grécia e Roma antigas, do Antigo Testamento e dos Povos Orientais.

03. No Livro dos Provérbios, reconhecido como o mais representativo da literatura bíblico-sapiencial, escrito entre os séculos IV e III a. C., encontramos esta precisa e atualíssima admoestação contra os odiadores da sabedoria: “Até quando, insensatos, amareis a tolice, e os tolos odiarão a ciência?” (1,22). Sócrates, em sua Defesa – na verdade a mais bela defesa da Filosofia conhecida, e escrita por Platão – sustenta altivo diante de seus acusadores, todos já devidamente encaminhados à lixeira da história, que uma vida carente de reflexão é vida indigna do ser humano. Todas as formas de autoritarismo vicejam e se alimentam da propagação da ignorância. A ignorância é essencialmente monocrática. É um deserto verde, como a de uma extensiva plantação de soja comparada à riqueza de biomas como os da Amazônia ou da Mata Atlântica.

04. O tempo da pressa, da razão pós-moderna, do consumo compulsivo, é intrinsecamente inimigo da Teoria e da Filosofia. Dotada de pernas e ideias curtas, a mentira recorre à pressa para se impor. Mas o apressado come cru e come mal. A Ave de Minerva, associada à Filosofia desde os tempos antigos, não alça voo premida pela resposta instintiva. A resposta instintiva, necessária à sobrevivência do ser vivo, dispensa teoria, porque restaria insensato, diante de um carro em desgoverno, pensar primeiro tempo e espaço como formas de sensibilidade a priori e somente depois dar o pulo salvífico. No pulo do gato, mais do que formas a priori, tempo e espaço são da natureza do instinto. Schopenhauer tinha um cão filosófico, mas não há notícia de que Kant tivesse um gato afeito a ideias puras.

05. A Filosofia respeita o instinto, mas não tem nele sua fonte. Por segurança e prudência, ela não alça voo ao cantar do galo. Aguarda o entardecer, como nos relata o conceito imagético de Hegel. Para voar alto, e ver as contradições sob a visão dialética da totalidade, ela não cede à impulsividade do agir irrefletido. Ela demora a dar a mordida e se abstém das iscas e dos efeitos enfeitiçadores que tomam o instinto pela razão. A sua teoria nasce da práxis, da síntese dialética, para escapar à miséria do teoricismo e ao imediatismo voluntarista. A Filosofia não se move em linha reta, o que não significa ausência de retidão. Se a Filosofia não descarta o aparente, também não o toma como suporte primeiro da verdade. A sabedoria popular já indica que é na casa da aparência que o engano encontra conforto.

06. Para que a Filosofia cumpra o que dela espera Wittgenstein: neutralizar os efeitos enfeitiçadores que a linguagem exerce sobre o pensamento, é preciso ir além do procedimento analítico do discurso e submetê-lo ao crivo da práxis. O que vale para Deus não vale necessariamente para o ser humano. Se desde o início, que não teve início, o Verbo é o princípio (in principio erat Verbum) e a própria Verdade, na espécie humana a verdade é busca. Não é, a rigor, nem ponto de partida, nem de chegada. Karl Jaspers afirma que a Filosofia se move mais pela busca do que pela posse da verdade. Deus pode prescindir da dialética, o homem jamais. No reino do que é Eterno, Onisciente, Onipresente, Imutável não há lugar para a dialética, que se fundamenta no devir.

07. A ideologia da pressa pós-moderna, que almeja resultado sem processo, retorno imediato sem a fadiga das mediações, infesta as consciências, sobretudo da juventude – mas não poupa nenhuma faixa etária – com a crença de que cinzenta e inútil é a Teoria, e tanto mais a Filosofia. No Fausto, de Goethe (1749-1832), Mefistófeles tenta incutir na mente do jovem estudante a sentença de que “aquele que desfruta o momento fugaz, esse é para mim um homem verdadeiro”, que para alcançar a felicidade imediata e cintilante deve-se abandonar o penoso caminho da reflexão, porque, afinal, como tenta ele, o príncipe das artimanhas, deve o jovem reconhecer “que cinzenta, caro amigo, é toda teoria, verdejante e dourada é a árvore da vida!”. Já numa idade quase imune aos interesses e investidas de Mefistófeles, tento me proteger de sua lábia sedutora recorrendo a Bachelard, um dos meus santos de profana devoção, ao afirmar que “a ciência é a estética da inteligência”.

* José Alcimar de Oliveira, vacinado contra o negacionismo, é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, no dia 14 de fevereiro do ano (ainda coronavirano) de 2021.


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