Impacto de um livro

A leitura de um livro sempre gera efeitos sobre o leitor. De tal sorte que só por desinteresse ou insensibilidade ele vê o Mundo da mesma forma, depois de lê-lo. No meu caso, sempre que a obra tem impacto maior sobre mim, rascunho algumas ideias e impressões, até como forma de reter na memória o aprendizado que as páginas escritas me proporcionaram.

Resultam desse processo os dois textos seguintes, o primeiro deles agora postado. O outro virá na quinzena posterior, dia 28. Este apresenta o material que serviu de base ao comentário que virá no próximo.

Anotações para Comentários a propósito do livro Terra Sonâmbula, de MIA COUTO

1. Dois relatos, o do narrador (Tuhair) e o de Kindzu, cujos cadernos eram lidos por seu acompanhante (Muidinga).

2. Primeiro plano - Tuhair e Muidinga descrevem a história de vítimas da guerra civil moçambicana. Segundo plano - Muidinga lê para o adulto os Cadernos de Kindzu, relatos míticos de outros tempos em Moçambique.

3. Personagens

· 3.1. Tuhair - o velho

· 3.2. Muidinga - o jovem leitor dos Cadernos...

· 3.3. Kindzu - o autor dos Cadernos, a história paralela.

· 3.4. Taímo - o pai de Kindzu.

· 3.5. Junho, Junhito ou Vinticinco de Junho - o menino que se transforma em galinha.

· 3.6. Surendra Valá - o comerciante indiano.

· 3.7. Assma - a mulher de Surendra Valá.

· 3.8. Afonso - o pastor que alfabetizou Kindzu.

· 3.9. Antoninho - o gordo ajudante de Surendra Valá.

· 3.10. Assane - o paralítico, antigo secretário do administrador.

· 3.11. Farida - a bela mulher, naufragada. A mulher dos Cadernos, p. 70.

· 3.12. Siqueleto - o velho alto, torto, um sobrevivente da guerra.

· 3.13. Euzinha - mulher larga, de muito assento (p. 78) que levava comida para a desaparecida Farida.

· 3.14. Romão Pinto - o português, "dono de muitas terras", p. 87.

· 3.15. Virgínia, Virginha, Virgininha - mulher de Romão, tomou Farida como filha.

· 3.16. Irmã Lúcia - branca, bonita, na Missão contou histórias para Farida.

· 3.17. Gaspar - o filho de Farida, que ela queria reencontrar, depois de fugido da Missão.

· 3.18 - Rafaelão - primo de Tuhair, maltratava a mulher.

· 3.19. Nhamataca - colega de trabalho de Tuhair, nos tempos de colônia.

· 3.20. O pai de Nhamataca - p.96.

· 3.21. Jorgina ou Jeorgina - prostituta que serviu a Tuhair, p. 134.

· 3.22. Maria Bofe - outra prostituta, do campo.

· 3.23. Joaquininha - outra das prostitutas.

· 3.24. Tinita - a prostituta tatuada, p.134.

· 3.25. Abacar Ruisonho - gordo, enormão, chefe do serviço de segurança, que controlava a migração.

· 3.26. Quintino Massua - o alcoólatra esquelético que acompanhou Tuhair e Muidinga na busca de Gaspar.

· 3.27. Juliana Bastiana - a prostituta cega que guiou os dois, à cata de Gaspar.

· 3.28. Silvério Damião - o brigadeiro amante de Juliana, que escrevia cartas para ela.

· 3.29. Carolinda - a bela mulher do administrador, que fez sexo com Kindzu, p. 146.

· 3.30. Estêvão Jonas - o administrador.

· 3.31. Salima - a mulher que manteve relações sexuais com Romão, estando menstruada.

· 3.32. Abdul Remane - soldador maometano.

· 3.33. Nipita - pescador morto por bandos armados, p. 166.

· 3.34. Pequeno pastor - tocava xigovia, p. 189. Contou a história do boi que voa e volta à terra, p. 189.

· 3.35. A bela adolescente - p.198.

· 3.36. Jotinha - dona de poderes miraculosos, mágicos, macumbeira (?), p. 199.

· 3.37. Shetani – um (a) dos acompanhantes de Romão Pinto, na tentativa de depenar o pescoço de Junhito, p. 217.


4. Vocábulos do lugar (?)/página

Embondeiros, p. 9; machimbombo/autocarro (veículo), p. 10; maningue (muito, demasiado), p.12; congolote (bicho de mil patas, maria-café), p. 13; sura e cipaio (aguardente de palmeiras e polícia colonial negro), p.15; micaias e machambar (? e cultivar terreno agrícola, machamba), p. 17; nenecar (adormecer, embalar ou trazer uma criança às costas), p. 20; empançar, depressar, trautinhar (???), quizumbu (hiena), p. 22; monhé(indiano), p. 25; enzebrunhar (?), p.26; naparama (guerreiros tradicionais) e xicuembo (feitiço), p. 27; timaca (confusão, briga), p. 30; canhoeiro (árvore frutífera, do nkanhu), p.30; nganga (oráculo, adivinhador) e ncuácuá (árvore frutífera), p. 32; arambiçar (?), p. 36; caganitas (?), p.37; rastolhar(?), p.40;concho(?), p.41; chissila (maldição), p. 41; psipocos ou xipocos (fantasmas), p. 43; marrecar (?), p. 44; xicuembos (?), p. 45; sura(?), p. 46; nhamussoro (feiticeiro), p. 47; capulana (?),p.48;


5. Uso original de termos conhecidos

...Muidinga SE MENINOU outra vez...

... dando vagas a distraídas BRINCAÇÕES.

...Taímo recebia notícia do futuro POR VIA DOS ANTEPASSADOS...

...visões do velho, ESTORINHADOR como ele era.

... Nem duvidem, avisava mamã, SUSPEITANDO-NOS.

... se escondeu entre meus braços, TREMEDOSO...

... Fazia isso PELAS TRASEIRAS da noite.

... Morrera, fugira, SE INFINITARA?

... carapinhoso, AGUARDENDO nos bafos.

... Me DEPRESSEI a chamar minha mãe.

... ela comendo terra vermelha PARA SEGURAR OS SANGUES DENTRO DO CORPO.

... Escutávamos o MARMULHAR das ondas.

... De repente, um ruído BARULHOSO nos arrepiava: era o BICHORÃO começando a chupar a água.

... desaguou na praia um desses MARMÍFEROS, enormão.

... Era um rapaz negro, de pele escura, AGORDALHADO.

... ideias que meu peito NÃO AUTENTICAVA.

... escutava com ABSURDEZ.

... Passou por entre nós dois, DESDELICADO, provocador...

... Única saída era SOZINHAR-ME, por minha conta...

... tu não sabes o que é andar, FUGISTA, por terras que são de outros.

... ficaram mastigando o tempo, RENHENHANDO .

... eles sofriam a VISÃO DA TERRA EM AGONIA.

... Ela baixou o rosto, ANONIMANDO-SE.

... Tuhauir sai do banco e avança, GATINHOSO, pé posto em cautela.

... Tuhair sorri, CARANTONHOSO.

... Na ponta da corda, o barco parecia um burrico, TROTEONDEANDO, no SOBIDESCE da água.

... Estava preparado para essa batalha com as FORÇAS DO AQUÉM.

... Fiquei nesse PRANTOCHÃO, até que o cheiro de passos me chegou.

... Essa é a ESTRANHEIRA: ele me manejava com delicadeza, VICE-VERSÁTIL, quase me fosse cinturar para uma dança.

... E me marrecava na canoa, INGÊNIO, ACREDITEÍSTA,.

... Havia sim as DESVIRTUDES, bondosas ATROPELIAS.

... Pai, não me castiga dessa maneira, SUSPLIQUEI.


6. Pura poesia

... Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte (p.9).

... Vão para lá, de nenhuma parte, dando o vindo por não ido, à espera do adiante (p.9).

... No convívio com a solidão, porém, o canto acabou por migrar de si (p.10).

... É que me dói uma tristeza...(p.13).

... Quero por os tempos em sua mansa ordem, conforme esperas e sofrências (p.15).

... As estórias dele faziam o nosso lugarzinho crescer até ficar maior que o mundo (16).

... Minha mãe não teve mais filhos. Juninho foi o último habitante daquele ventre (p.17).

... Esse lugar existe, mas sofre de lonjura muito comprida (p.32).

... Disse que havia duas maneiras de partir: uma era ir embora, outra era enlouquecer (p.32).

... Por isso eu digo: não é o destino que conta, mas o caminho (p.33).

... Cuidado, meu filho, só mora no mar quem é mar (p.33).

... estas foram as palavras do adivinho, que nunca descobri a fundura (p.33).

... O velho lhe dedica paciências, em paternais maternidades (p. 36).

... meus braços cumpriam o serviço de me levar (p.41).

... eu me peixava, cumprindo sentença (p.42).

... Aquela manhã estava bem disposta, aplaudida pelo sol (p.42).

... enquanto ele aprendia a ser morto, a velha parecia há já muito saber da viuvez (p.47).

... O nhamussoro já anunciara o pedido a uma outra mulher, dessas que moram do lado da vida (p.47).

7. A visão de mundo

... O que já está queimado não volta a arder (p.10).

... Parece que o fogo gosta de nos ver crianças (11).

...Os falecidos se ofendem se lhes mostramos nojo (p.11).

... Em tempos de guerra, filhos são um peso que trapalha maningue (p.12).

... A guerra é uma cobra que usa nossos próprios dentes para nos morder (p.17)

... O sonho é o olho da vida (p.17).

...Quem não tem nada não chama inveja de ninguém. Melhor sentinela é não ter portas (p.18).

... Eu gosto de homens que não têm raça (p.29).

... Sem família, o que somos? Menos que poeira de um grão. Sem família, sem amigos, o que me restava fazer? (p.29)

... A morte só ensina a matar (p.31).

... A gente morre cheio de saudade da vida (p.31).

... Quem não tem amigo é que viaja sem bagagem (p.34).

... A morte é um repente que demora (p.43).

... Fica saber: o chão deste mundo é o tecto de um mundo mais por baixo... (p.43).

... A luz do cego está na sua mão (p.43).

... As ideias, todos sabemos, não nascem na cabeça das pessoas (p.44).

... A terra não envelhece porque trabalha deitada (p.48).

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