Ignorância seletiva

Ao longo de minha vida, aprendi muita coisa sobre o ser humano. A tal ponto que já não me surpreende a constatação de que para muitos a condição a que Hannah Arendt chama humana diferencia uns dos outros indivíduos. Há aqueles dotados de determinado grau de humanidade, enquanto a outros o qualificativo é atribuído em função de andarem sobre as duas patas traseiras e terem aparência que os aproxima dos demais. Nada além disso. Nesses bípedes sem mérito é frequente a incoerência, desde que ela ajude a consumar propósitos impossibilitados de os erguer à condição humana. Exemplo com o qual topo a todo instante, hoje mais que ontem, diz respeito à defesa de uma economia em que o dinheiro e a riqueza material subordinam todos os atos e a própria vida desses indivíduos. Os que não se cansam de proclamar que time is money. Dito assim, em outra língua, porque a veneração à pátria-mãe (muitas vezes madrasta) é o que conta. Fingem todos ignorar que os valores orientadores de suas ações são escolha própria. Quando ocorre de saberem que há valores não mensuráveis, o que é pouco frequente. Algo compreensível, se lembrarmos que sua opção é por outro tipo de valor. São os mesmos que, por qualquer dá cá aquela palha, saem em defesa do que batizaram de mercado. Defendem essa instituição informe, inodora a não ser pelo mau cheiro dos negócios que a justificam, e sensaborosa, não fosse o prazer que o bolso cheio dá, sempre que veem ameaçado o benefício pessoal que os anima. Revoltam-se, hipocritamente, contra o juiz que vende sentenças, a mãe que prostitui a filha, o servidor público corrupto. Fazem-se de bobos, quando a realidade em sua crueza ilustra a prédica costumeira em sua linguagem: todo homem tem seu preço. Magistrado, mãe, corrupto apenas encontraram a oportunidade de ver tal preço pago. Agora, o exemplo mais flagrante desse paradoxo está na reclamação diante das manobras que certas empresas tentam articular, para vender a vacina, dela apoderando-se antes que o poder público a assegure, gratuitamente, a todos. Sequer admitem suspeitar de que a hesitação governamental em relação à imunização dos brasileiros tem a ver com isso.

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