Humanos, talvez*


Quatro dias foi quanto levei para percorrer as 206 páginas do romance O deserto dos tártaros, de DINO BUZZATI. Uma das publicações distribuídas pela TAG aos associados, a obra é dos melhores romances que tenha lido. Pelo menos, nos últimos dez anos.

Nele, o escritor e jornalista italiano narra a história de um jovem militar – Giovanni Grondo – designado para servir em um forte isolado do mundo urbano a que o protagonista estava acostumado. Era o Forte Bastiani, cuja localização é impossível determinar, levadas em conta as informações contidas no próprio livro. Isso foi destacado pelo crítico literário Antônio Cândido, na resenha constante da brochura que costuma acompanhar toda obra editada pelo clube TAG. Cândido também aponta outra particularidade: mesmo os nomes dos diversos militares citados forçam a crença de que o autor se empenhou em não revelar o lugar exato, o país inclusive, em que se situa o Forte Bastiani.

Outro crítico, Otto Maria Carpeaux disse de O deserto dos tártaros: é “um dos mais impressionantes romances alegóricos deste tempo”. Embora discordando quanto ao nome do Coronel Filimore (que me parece italiano), bem que Tronk, Morel e alguns outros aparentam serem inspirados em outros países da Europa. A maioria dos colegas de Grondo, porém, tem nome italiano: Madorna, Angustina, Matti, Prosdocimo, Moretto, Simeoni...

Interessado na carreira militar, Giovanni aceita ingressar pela porta de entrada de um estabelecimento de fronteira. Não é dito entre que países. Ainda que lhe fosse possível escolher outro lugar, a curiosidade e certo espírito de aventura levaram-no ao Forte Bastiani.

A jornada até o lugar inóspito, no entanto, dissolvera o entusiasmo inicial. Quando ingressou no espaço muralhado, Giovanni já não tinha a mesma disposição que o levara ali. A dureza da cavalgada, a sensação de isolamento, o ambiente em nada semelhante ao que o cercava na cidade, a natureza tão hostil, tudo isso lhe causara no mínimo intensa perplexidade. Ele passaria apenas alguns meses no Forte Bastiani. Cumprido esse período, trataria de transferir-se.

Os dias passavam modorrentos, enquanto Drogo ocupava-os entretido com as rotinas próprias da caserna.

Chegado o fim dos meses que fixara, pediu ao velho médico militar que autorizasse sua transferência. Após os procedimentos de praxe, os exames justificativos de sua volta á cidade todos prontos, o jovem tenente decidiu prorrogar sua volta.

Já se deixara influenciar pela ideia de que no ermo em que se erguia o Forte estava a oportunidade de chegar à glória. Quem sabe os tártaros que se dizia interessados em atacar o Bastiani não teriam nele um dos mais ardorosos inimigos? Quem sabe a oportunidade de fazer-se herói, matando os invasores, tantos quantos pudesse, não lhe asseguraria a recompensa pelo sacrifício da longa internação naquele território tão inóspito, quanto agressiva a natureza?

Giovanni foi ficando. Como antes já haviam ficado outros, cujos sonhos foram deixados fora das muralhas, sem a menor chance de lhes serem devolvidos.

Só um novo sonho tinha alguma probabilidade de ser sonhado, porque assim fora com os mais antigos, os que haviam chegado ao Bastiani antes – alguns, muito antes – de Giovanni Grondo: a sempre divulgada iminência de uma guerra. Afinal, para que servem os militares, e o que alimentaria os seus dias, se não houvesse guerras? Ou, ao menos, a possibilidade, mais remota que fosse, de um dia combaterem, armas à mão, inimigos ferozes?

Ainda assim, o tenente Grondo afastou-se do forte, em licença. Na cidade, trataria de obter a transferência, mesmo à custa da intermediação de sua própria mãe. Esta tentativa, porém, foi malograda. O general não poderia desapontar outros dos colegas de Giovanni, desejosos manifesta e anteriormente ao tenente Grondo, ao mesmo benefício por ele solicitado.

Os dias passados fora do forte mostraram ao oficial quanto já se acostumara à vida modorrenta daquela construção quase arruinada, em meio às montanhas ameaçadoras e ao vale de onde diziam virem os tártaros, também eles ameaçadores. Nem mais o frio intenso e a neve, de cujo açoite ele conhecera as consequências, causavam apenas tédio. Não um sentimento insuportável. Indesejável, talvez. Não o suficiente para firmar nele a decisão de partir dali para sempre.

Nem a morte do amigo Angustina, nem o assassinato acidental (ou não se o pode classificar assim?) de Lazzari conseguiram romper os laços de Grondo com a sensaboria da vida castrense. Ele já estava total e absolutamente cativo daquele modo de (sobre) vida.

Quando finalmente era quase certo ou pelo menos nisso acreditavam seus chefes, o ataque dos tártaros, o capitão Giovanni Grondo foi mandado embora. Foi como se o tenente-coronel Simeoni lhe dissesse “aqui não há mais lugar para você, capitão”.

BUZZATI oferece ao leitor aguda percepção do cotidiano militar, com sua rotina, seu quase esquecimento de que os quartéis abrigam seres humanos como quaisquer outros que não adentram naquele território em que a norma escrita se impõe como um dogma religioso. Embora implícita, a suspeita de um verdadeiro processo de adoecimento a envolver todos os conviventes do Forte não escapa ao olhar do leitor, menos atento ele seja.

O mínimo que fica, após a leitura do instigante, desafiador e por vezes surreal romance é a reflexão sobre a guerra e o fascínio que ela desperta em alguns seres que ainda se dizem humanos. Como entender que a sociedade humana, tão capaz de explorar a imensidão do universo, ainda se deixa entusiasmar pela aventura bélica? Como admitir sentido na preparação de seres humanos para matarem seus semelhantes? Como valorizar a existência dos que pensam realizar um sonho à custa da eliminação de outros – pior, sem que nenhuma razão de ordem pessoal tenha a menor dose nessa decisão?

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*Manaus, 20 de janeiro, 2019, data em que os fluminenses reverenciam São Sebastião, cuja imagem ostenta feridas causadas pelos inimigos.

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Este livro, antes de ser a história de uma experiência exemplar, é o reconhecimento da criatividade e da determinação de um ser humano que o sabe ser. Integralmente. Há, na homenagem, muito de justiça

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