Humanidade desejada

Tem seis anos o garoto. Surdo nasceu, em uma pequena cidade belga. Wout é seu nome. Wuustwezel,o lugar onde mora, com Tess – a mãe – e Bert, o pai. São 18.000 os habitantes. Sua única irmã nasceu quatro anos depois dele. Os pais, trabalhadores, preferiram suprir o filho das condições ideais de sociabilidade, a lamentar-se. Nos primeiros anos de vida foi-lhe implantado no aparelho auditivo um dispositivo eletrônico. O implante coclear, esse o nome da geringonça tecnológica, não deu o resultado buscado pelos pais da criança. O progresso na redução da surdez foi mínimo. O mecânico e sua mulher não deixaram por isso. Haveriam de superar a deficiência com que o filho nascera. Ambos aprenderam a linguagem de sinais, a despeito da distância que os fazia deslocar-se duas vezes por semana, à noite, para a escola. Em quarenta minutos chegavam à escola especial. Eram 400 km por semana, confrontados com as esperanças de pai e mãe. O casal sempre os venceu. O menino crescia. Também já aprendera a expressar com as mãos o que a boca não podia dizer. O tempo passava e os pais sentiram prejudicada a educação do menino. Era preciso avançar nos cuidados e favorecer a inserção do filho na vida comum da comunidade local. Tanto se empenharam, resultando na instalação de uma turma da escola do ensino de linguagem gestual na pequena cidade em que mora a família. Era preciso assegurar número mínimo de alunos, sem o que a permanência da única turma seria curta. O casal tratou, por si mesmo, de estimular outros moradores ao aprendizado da língua de sinais. Não demorou, surgiu um novo problema, a desafiar a tenacidade e os brios dos pais do menino surdo – e tão bem amado. Como amados seus pais, vizinhos amáveis capazes de matricular-se no curso. O amor fez o resto. Hoje, todos os moradores da rua em que Wout mora frequentam a escola. Para poderem, mais que educar o garoto, mostrar-lhe quanto um gesto de amor é possível, mesmo nas condições mais adversas. Não é assim que tem caminhado a sociedade do animal arrogante. É possível torna-la humana, a despeito de tudo. A covid-19 impôs-se: suspensas, as duas turmas preveem voltar às aulas em janeiro. Resistirá ao tempo e à vacina essa proximidade com o humano?

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