Hora e vez dos aventureiros

Agrada aos governos autoritários certo maniqueísmo. Donos da verdade única, incapazes de entender o mundo segundo algo diferente de eterno confronto entre os bons e os maus, os governantes engendram as mais torpes missões. Uma delas tem sido, ao longo da história, o envolvimento de suas nações em lutas de que não resulta mais que o sacrifício da vida de seus compatriotas. Aventuras em nada dignas de qualquer mérito, porque lavadas com sangue derramado sem razão, não são desconhecidas, aqui mesmo no continente americano. Só os ignorantes por opção, ou os mais novos para quem a história terá começado quando vieram ao Mundo, não sabe o que foi a Guerra das Malvinas. Nela, o governo ditatorial da Argentina buscava esconder as atrocidades cometidas contra o seu povo. O resultado, tingido pelo sangue dos soldados argentinos, foi o registro de uma das maiores humilhações impostas a um país. As forças britânicas venceram e a ditadura somou mais uma das muitas tragédias encenadas em seu solo.

Agora prepara-se quase às escâncaras uma incursão armada na Venezuela. A pretexto de derrubar o Presidente Nicolás Maduro, um ditador, sim. O aventureiro Juan Guaidó, herói para os que só pensam na guerra e por isso abandonam qualquer proposta de paz, lidera a mobilização que se faz, como preparação para a aventura armada. O Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) assinado em 1947 dá o suporte jurídico-político da intervenção sugerida. O pretexto, sabe-se, seria a forma como Maduro vem dirigindo a Venezuela. Como se no Iêmen, na Arábia Saudita e em tantos outros países fosse diferente o regime...

Negar o caráter ditatorial do governo venezuelano parece-me arriscado. Tanto quanto negar o direito de autodeterminação dos povos. Isso, mais que as questiúnculas entre duas nações (no caso, Estados Unidos da América do Norte e Venezuela), é o que deve ser levado em conta. Se a questão é pequena, seu móvel - as reservas de petróleo daquela país vizinho - tem alto poder explosivo. Se - e quando - o Brasil mandar seus jovens para morrerem em território venezuelano, o que resta da tão falada e desrespeitada soberania nacional terá ido pro brejo. Quem nos garante que não seremos os próximos agredidos?

A restauração da doutrina Monroe volta com toda força. Só que desta vez sob o aplauso e os salamaleques das futuras vítimas. Aventureiros os há, cá e lá...


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