Honra desafiada


Estamos às vésperas de novamente assistir a mais um atentado contra os interesses da Amazônia. Como da vez anterior, interesses rigorosamente vinculados à sanha privatizadora que tomou conta do País, cada dia revigorada. Refiro-me à ameaça de vermos destruído todo o esforço de pelo menos três gerações, empenhadas na exploração do petróleo. A campanha o petróleo é nosso, no meado do século passado, juntou o povo a lideranças militares, políticas, empresariais e intelectuais, redundando na criação da Petrobrás. Num certo sentido, a repercussão daquele movimento no seio da sociedade fez da estatal criada por Getúlio Vargas em seu governo constitucional um modelo de administração. Muitos dos profissionais que trabalharam na empresa contribuíram não só para a economia do país, como para a melhoria da educação. Para não me estender demais, menciono que a administração de pessoas imbuídas das ideias originais dos fundadores da empresa contribuiu expressivamente para o ensino da Administração de Pessoal. E a Petrobrás ganhou lugar de destaque no cenário internacional.

Isso não impediu, porém, que se articulassem os interessados no fracasso da nossa estatal do petróleo. Daí vem o capítulo terminal do primeiro sonho de explorar o óleo contido nas profundezas da Amazônia. Estão ainda hoje lá as pesadas lajes de concreto, que impediram a prospecção e a exploração do chamado ouro negro. Eu as vi, em Nova Olinda do Norte, pelo menos. À época, militares de outra estirpe aliaram-se e apoiaram um geólogo norte-americano chamado Link na frustração do sonho regional. Alguns deles, depois, tornaram-se as autoridades máximas da Petrobrás na região.

Posteriormente, a resistência à busca de petróleo neste pedaço do Brasil foi removida. Surgiu a bacia do Solimões como potencial fornecedora desse recurso natural que todos afirmam em vias de extinção e utilidade, não obstante furiosa e sofregamente cobiçado.

Os que têm alguma informação sobre o assunto sabem quanto custou à sociedade e ao governo instalar no Urucu a base das operações da Petrobrás. E dos cuidados com que essa base foi montada, a começar pelos aspectos sanitários. Essa a causa de a malária ter sido controlada, muito em razão dos critérios científicos observados. Antes mesmo de operar, a base do Urucu recebeu cientistas aos quais a Amazônia muito deve. Do conhecimento deles e do seu alto espírito público nem sei se todos sabem. Estava dentre eles, o médico Heitor Vieira Dourado, esse mesmo que dá nome à Fundação e ao Hospital por ela mantido. O mesmo que teve, dentre tantos como aluno dedicado e aplicado o cientista Marcos Vinícius de Lacerda, que a ignorância e o obscurantismo não se pejam de agredir.

Pois agora, quando a Ciência se vê escorraçada e os seus profissionais são ameaçados, enquanto em curso política genocida que nos apequena aos olhos do Mundo, anuncia-se o abandono do sonho.

Resistir vigorosamente contra mais este atentado antiamazônico não será apenas dever de todo amazônida. É obrigação mais que cívica, porque humana. É mais que interesse político, mas sinal de apoio à vida – dos amazonenses, dos amazônidas, dos brasileiros, onde quer tenham nascido, onde quer que estejam. Independente de cor, profissão, orientação sexual, estamos todos postos frente a um desafio sobretudo à honra de que nos dizemos portadores.

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