Homem, ratos, leões, cachorros e gatos

Sempre que alguém se confessa apolítico, avesso à Política ou indiferente a ela, fica-me registrada na memória a pior das impressões. É como se meu interlocutor estivesse renunciando àquilo que se chama condição humana. Minha sensação é a de estar diante de alguém confessadamente a-humano, inumano ou desumano. Não sei ao certo como chamar. Sinto o ímpeto de dizer-lhe que a Política, como a entendo, é o espaço onde o maior traço de diferenciação entre os homens e os animais que se dizem inferiores a nós se revela e exercita – a vontade. De instintos todos dispomos, dos ratos que habitam os esgotos até os leões, hienas e zebras encontrados nas florestas e savanas. É comum, portanto, aos dotados de consciência e aos que dela não dispõem, o esforço por manterem-se vivos e reproduzirem sua espécie. Nós, os aparente e presumivelmente humanos, temos consciência disso. Tudo o que fazemos se orienta por algum raciocínio, por algum interesse, por algum desejo. A vontade, em qualquer caso, em condições normais determina nossa ação.

Ainda na Grécia Antiga Aristóteles considerou o homem um animal essencialmente político. Sem dizer a que partido qualquer indivíduo pertence, ele apenas discerniu entre a condição humana e a animalidade irracional. Está nesse particular aspecto o conceito que faço, da Política e do único animal que pode exercê-la.

Diante dessa forma de ver as relações sociais e tentar compreender o espaço onde elas se constroem e desenvolvem, não tenho como dialogar com os que se despem de uma – se não a única – medida de nossa animalidade. Tão mais dotados de vontade, tão mais interessados em pô-las em discussão, tão mais empenhados na construção e reconstrução consciente e inconsciente do Mundo, mais político me sinto. Mais humano, também.

Criasse cães ou gatos, não deixaria de dar comida e atenção a eles. Talvez ainda dispensasse algum do meu escasso tempo a brincar com eles. Jamais os convidaria para conversar. Ou trocar ideias.

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