Hipocrisia e chantagem


Para não incorrer em equívoco de que me venha arrepender, digo que a máxima “os fins justificam os meios” veio e promete ficar, no soalho de nosso tão maltratado País. Estabelecida essa regra, tudo quanto concorra para chegar ao objetivo escolhido por uns (ainda que em detrimento de todos os demais), é válido. Mesmo se o observador corre o risco de ver-se comparado – e tido como igual – a muitos dos que ele condena.

Ora, se a busca de determinados objetivos autoriza alguns à prática de ilícitos, desde que isso assegure o triunfo final, tudo passa a valer – a chantagem e a hipocrisia, no pelotão de frente.

Já não fico pasmo, porque seria provar nada ter aproveitado nas mais de sete décadas de vida como um caminho de permanente aprendizado. Ao invés disso, recorro à memória e tudo quanto pude observar, registrar e manter vivo em mim. Alguns fatos, do meu conhecimento pessoal, tocam mais de perto minha sensibilidade. Outros, de que tive conhecimento não faz muito tempo, juntam-se aos primeiros, para construir um quadro que eu só lamentaria se desse algum crédito a cenhos cerrados, pose de catões e palavras ocas. Quase sempre, a esconder frustrações ou extravasar ressentimentos.

Pois é o que tem ocorrido, nos últimos meses. Constato que os atores concorrem para restaurar as máscaras um dia usadas no teatro, personas de um bem que desafia qualquer nível de compreensão. O bandido de ontem traveste-se de crítico de costumes; o delinquente tenta passar por pessoa honrada, o apedeuta deita falação, sobre o que sabe e sobre o de que não entende. Se a isso não se pode chamar hipocrisia, não sei que nome dar a essa deletéria atividade que maltrata a verdade e espezinha a menor consciência cidadã.

Seria tentado a atribuir a certo espírito chantagista essa entrega da qual resulta a discriminação mal escondida nas palavras: se é do mesmo lado em que o suposto Catão se coloca, pode tudo; se lhe é adverso, é bandido. Alguns chamarão isso de maniqueísmo. É pouco. No maniqueísmo, há o bem e o mal. Na conduta a que me refiro, o mal é reservado aos outros, aos bandidos pelos quais o Catão não tem a menor simpatia. Aos primeiros, é desejada a morte. Dos outros, podem esperar ainda a desejada recompensa. Sabemos que um dia ela virá. Quem duvida?

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