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Hipócrates e Aristóteles desafiados

As eleições no Conselho Federal de Medicina dão exemplo contundente de como Hipócrates está definitivamente afastado dos profissionais que usam seu nome, para receber um diploma acadêmico. O texto lido e repetido pelos formandos das escolas de Medicina nada tem a ver com a conduta dos que desprezam a Ciência, tentam ridicularizar quem ainda a leva em conta e colocam em primeiro lugar a vida dos pacientes ou a redução de seu sofrimento. Não se trata, aqui, de verberar contra as divergências políticas e ideológicas que o resultado daquele pleito atesta. A ninguém, por mais estúpido que seja, deve ser negado o direito de optar por essa ou aquela corrente filosófica, por essa ou outra ideologia, seja por qual for o partido. Desejos, vontades, sonhos e anseios é que tornam os que chamamos humanos substancialmente diferentes dos outros animais. Se os instintos bastam a estes, os ditos superiores têm na vontade o móvel de suas decisões e ações. Às primeiras está reservado o espaço social chamado Política, com a peculiaridade de que a vontade manifesta pela coletividade constitui o centro da questão. Assim, desejos, sonhos, aspirações e anseios individuais devem pesar menos que os coletivos, como ocorre de acontecer onde a Política é levada a sério e o egoísmo se contém nos estreitos limites de sua permissibilidade. Trocando em miúdos: quando o egoísmo prevalece, estaremos sempre diante de uma forma distorcida do fazer político - o autoritarismo, de que se têm aproveitado os estúpidos de toda espécie. No caso dos profissionais da Medicina, há evidente desafio a Hipócrates e a Aristóteles. Segundo este, o ser humano é sobretudo um animal político. Já o outro recomenda - e todo diplomando em Medicina o tem dito, com justificado e oportuno júbilo - conduta orientada pela Ciência e a busca do bem-estar do paciente. Não tem sido esse, porém, o comportamento de boa parte dos eleitos para o CFM. Quem acompanhou o noticiário durante a pandemia que matou mais de 700 mil brasileiros não terá dificuldade em identificar quantos dos eleitos agora seguiram e aplaudiram a ação maléfica dos cúmplices do vírus mortal. Há muita hipocrisia em muitos dos que se dizem comprometidos com o mandamento de Hipócrates.

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