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Higidez necessária

Desde criança, aprendi que a lama exala mais sua podridão, quanto mais se mexe nela. Quando as fezes estão presentes, aí, então, mais fétido o odor dela desprendido. Por isso, parece-me despropositado mencionar o silêncio de algumas personalidades doentias e, sobretudo, desprovidas dos sentimentos que só aos humanos é dado manifestar. Ou, mais grave ainda, lembrar neste momento de justa celebração da arte praticada no Brasil, gestos e palavras desprovidas de qualquer valor digno. A comemoração, o festejo, a memória devem voltar-se para o que, nesse caso como em tantos outros, é substancial. A substância está nos fatos relatados por Marcelo Paiva e levado às telas por Walter Salles Filho. Difícil imaginar que alguém comprometido com as atrocidades que a obra denuncia veja algum mérito no filme Ainda Estou Aqui. Nem isso seria positivo, para o escritor, o diretor e todos os demais artistas e técnicos que participaram do melhor filme internacional, como o classificaram os julgadores do Oscar. A homenagem, a reverência e a adesão valem pela sua origem. A qualidade atribuída por um ímprobo ao que quer que seja, reduz a importância e a respeitabilidade do objeto reverenciado. Com o risco de coloca-lo no rol de improbidade que inclui o agente da reverência. No máximo, pode-se ter tal homenagem como simples ironia, a despeito do paradoxo de a ironia ser

qualidade quase sempre ligada à inteligência. Os néscios e ignorantes raramente a têm. Se ocorre de alguma vez a cometerem, lance-se o registro na hipótese da exceção confirmar a regra. Preocupemo-nos, portanto, com celebrar o talento tão invejado e perseguido dos brasileiros, que nem a dor de tantas famílias, como a de Rubens Paiva, conseguiu esmaecer. Esquecer os esguichos - de lama ou cuspe, pouco importa - ajudará a manter hígido o ambiente social.

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