Guerra e guerra religiosa


A laicidade creditada à república precisa ser entendida pelos servidores do Estado, a não ser que se trate de outra forma de organização política. Faz muito tempo que os deuses de cima perderam a concorrência com os aspirantes terrenos à deidade. Não obstante, está abaixo das exigências republicanas e do avanço das ideias o sentido que muitos dos que servem - ou deveriam servir - ao Estado dão à laicidade. Teimam, assim, a interferir nas práticas religiosas, como se elas também devessem ajustar-se às razões de (outro) Estado. Por mais controversas que estas sejam.

Pode ser mais um espaço em que as forças do mercado desejem impor-se, mas nem por isso imunes à mais ampla discussão. Desta, pelo menos nas repúblicas que merecem tal classificação, o que sempre se pedirá é a transparência, único alicerce em que podem assentar-se a autonomia e a harmonia entre os três poderes.

Políticas públicas, mesmo seus arremedos ou fragilidades, não podem interferir em seara alheia às funções do Estado. Se isso ocorre, tão grave quanto a volta ao passado anterior à Revolução Francesa, é a atribuição às confissões religiosas de interferência na área reservada ao ente estatal.

Festejado como lúcida liderança militar, o ex-Comandante do Exército, general Vilas Boas, não tem atentado para os riscos que a república corre, sempre que se mistura o exercício do poder político com as crenças e práticas religiosas.

Se as agressões a outros países e seus líderes não bastassem, o Presidente da República está longe de reduzir as tensões daí decorrentes. Ao contrário, depois de agredir os Presidentes da França e da Venezuela, Jair Bolsonaro pôs sua baladeira (ou estilingue, como alguns a chamam) na direção do Vaticano. Este, como se sabe, é um Estado religioso, num certo sentido como o Irã.

Há, portanto, certos rituais impossíveis de ignorar. Um deles, o de respeitar as pautas de seus respectivos governos. Maior que seja a discordância, as manifestações hão que fazer-se pelos canais e instituições adequados. A Organização das Nações Unidas, ao que parece de bom senso imaginar.

O Sínodo da Amazônia, como todos sabemos, é iniciativa do Cardeal Jorge Bergoglio, Chefe do Estado do Vaticano e líder maior da Igreja Católica. Divergir do Papa e desprestigiar sua iniciativa é até admissível. Tentar invalidá-la e tê-la como decisão hostil compromete o discurso supostamente patriótico. Como defender a soberania brasileira, se a negamos a outro Estado? Ainda mais quando os que se propalam defensores da soberania nacional não percebem quanto o tráfego de trêfegos capitais gera operações de compra e venda (de quase tudo, de commodities, moedas, mandatos - até consciências), mundo afora. Pior, quando alguns desses mesmos defensores perfilam-se aos interesses de governos estrangeiros, sem faltar a reverência ao símbolo-mor das respectivas nações.

Nunca será demais lembrar: a democracia não escolhe deuses, nem mitos. Ela se completará quando alicerçada na consciência cidadã. Até que logremos chegar à igualdade, fraternidade e liberdade de que falou a revolução burguesa de 1789.



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