Guernica tropical


A Aldir Blanc e João Bosco ocorreu criar O bêbado e a equilibrista, como resposta ao clima tenebroso vigente no Brasil, no que até então se constituíra no período mais trágico de nossa história. Hoje, quando vemos morrerem mais de 270 mil irmãos, vitimados por vírus criados pela natureza, a que dão força vermes a ele associados, é Guernica que me vem a memória. O mural, saído das tintas a óleo tão bem manejadas por Pablo Picasso (1981-1973) representou a Espanha, na Feira Internacional de Artes e Técnicas, em Paris. O ano era 1937. A cidade basca situada ao Norte daquele país ibérico fora bombardeada por tropas fascistas, o episódio tornando-se inspiração do justamente celebrado imortal pintor.

Só em 1981, passado o longo pesadelo com que conviveram os espanhóis, desde a guerra civil, o mural medindo 3,49m de altura por 7,76m de largura foi transferido para Madri. Hoje, pode ser visto pelos visitantes da bela capital europeia no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia. Atrai milhões de visitantes anualmente, como uma das mais contundentes mensagens antibélicas e de respeito à Humanidade que se pode conceber. No bombardeio que Picasso tão bem representou morreram 1.660 pessoas, ficando feridas outras 890 vítimas. O noticiário de hoje, quando a pandemia tem registrado seu trágico aniversário, registra mais de 270 mil mortes causadas pela covid-19 no Brasil, multiplicando por mais de 160 vezes as vítimas espanholas de 1937. Nesse mesmo ano, aqui experimentávamos um golpe de Estado, de que resultou a primeira experiência fascista nessa terra que se diz abençoada por Deus. E um dia se disse da Santa Cruz. Hoje, as cruzes se multiplicam nos cemitérios, a velocidade que certamente as bombas despejadas contra Guernica não desenvolviam. Ponho-me, diante disso, a imaginar o que estará ocupando a mente e as mãos de nossos artistas, muitos deles privados da companhia de parentes e amigos sacrificados pelo mesmo ódio que exigiu a manifestação do pintor basco.



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