Gratidão

Universidade Federal Fluminense - UFF

Programa Estudos de Administração Brasileira - ABRAS

Sessão de outorga do título de PESQUISADOR EMÉRITO, 16/12/2016

Desde o primeiro dia em que entrei numa sala de aula da Universidade Federal do Amazonas - e isso ocorreu no distante e lamentável ano de 1968, que felizmente acabou - intuí ser a pesquisa atividade indissociável, se não essencial, ao fazer acadêmico. As sucessivas turmas do Curso de Administração e de outros para as quais eventualmente eu ministrei aulas, ouviram de mim um juízo que me acompanhou durante toda a vida de professor - e ainda não me abandonou: transmitir informações não esgota a missão de quem educa. Porque nesse particular aspecto, os professores, mais bem qualificados que sejam, jamais o farão melhor que os comunicadores. Os camelôs fazem isso melhor que nós.

Daí meu compromisso voluntário e até certo ponto intuitivo, com as duas outras funções atribuídas ao ensino universitário. Aqui, proposital e enfaticamente, declaro minha divergência com a expressão ENSINO DE TERCEIRO GRAU. A meu juízo, o cotejo entre o nível acadêmico e os níveis anteriores da educação formal não se deve circunscrever ao momento em que o educando é exposto à nossa frequentemente enfadonha peroração. Também não vejo como admitir a manutenção do mesmo tipo de relacionamento característico dos ensinos fundamental e médio, quando nossa plateia é constituída de seres humanos na fase final da adolescência, muitos até ingressando na fase adulta da vida. Aqui, começa a ser exigida do educador conduta estimulante da criatividade e da autonomia intelectual dos jovens. Mais do que conhecimentos, de resto encontradiços também fora dos livros, o que eles procuram é resposta a indagações que possam conduzí-los à sabedoria. Esta, sabe-se, não é apanágio dos que acumulam conhecimento, porque é própria dos que são capazes da análise e interpretação dos fenômenos, e de conduta que leve à satisfatória solução dos problemas e questionamentos propostos.

Ora, se não é a transmissão de conhecimentos consolidados o cerne da missão do professor universitário, o que constitui, de fato, nossa principal tarefa? Em outras palavras: como exercer com dignidade e coerência o magistério superior, de modo que tal adjetivo seja mais que um ornato retórico?

Vem a pelo, portanto, mencionar a pesquisa e a extensão, sem as quais se torna vã qualquer tentativa de diferenciar os níveis escolares sucessivos.

É certo que algum conhecimento há de ocupar o tempo e os afazeres do professor de universidades. Faz sentido, portanto, atentar para os bons processos de comunicação. Mesmo se nenhum de nós aspirar um dia à comparação com Sílvio Santos e outros excelentes apresentadores mais jovens.

Mais importante que isso, porém, é fazer do conhecimento transmitido, mais que um fim, apenas o começo. Porque o dito e revelado há de servir, sobretudo, à emergência de novas dúvidas, de novas e instigantes indagações. Como encontrar respostas, sem nos atirarmos à investigação dos fenômenos que nos interessam?

É na pesquisa que vamos encontrar satisfação, com interpretações e explicações que se espera serão sempre provisórias. Para que a produção do conhecimento jamais seja interrompida, mas também para que novos problemas desafiem a inteligência humana. Uma espécie de permanente devir.

Quase nada direi da extensão, pela absoluta crença de que sem levar a público o

resultado do esforço investigativo, estaríamos condenando o conhecimento ao olvido e a comunidade à ignorância. Costumo dizer que conhecimento guardado equivale à ignorância.

Disse tudo isso, para dizer-lhes quanto me soa gratificante a homenagem que o generoso Colegiado do ABRAS me confere. Digo-o, com a alegria de participar, já faz tanto tempo, de muitas das mais importantes atividades do programa. Não custa lembrar que, dirigente da Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera, quando ainda se chamava Fundação Djalma Batista - ambas com a sigla FDB, fui desafiado por PAULO EMÍLIO MATOS MARTINS a promover e sediar em Manaus eventos rememorativos da Guerra de Canudos, no já distante ano de 1997. Depois disso, e sempre estimulado e desafiado por esse espírito saudavelmente inquieto e quixotescamente produtivo, envolvi a ONG por mim dirigida de 1995 a 2014 na meritória programação do ABRAS.

Permaneço integrado ao grupo, mesmo após ter deixado a FDB.

Além do agradecimento ora expresso à generosidade do Colegiado, destaco a honra de ter como companheiros dois profissionais que granjearam meu respeito, minha admiração e amizade, OCTÁVIO PIERANTI e OSWALDO MUNTEAL. Se os três damos testemunho sobre o êxito do programa Estudos de Administração Brasileira, também o damos do denodo, da determinação e da persistência com que PAULO EMÍLIO se entrega a um projeto dos mais relevantes para a formação, não diria apenas de administradores, mas de cidadãos conscientes e aptos às tarefas que nossa sociedade desigual impõe aos homens de bem.

MUITO OBRIGADO!

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