Grandes homens

Sou de uma geração que vibrava com as aventuras e a coragem de Hopalong Cassidy, Gabie Hayes, Flexa Ligeira, e Roy Rogers. Eram todos heróis cavaleiros, empenhados em exterminar os indígenas norte-americanos ou os que eles chamavam bandidos. Lia-os em gibis às vezes comprados, às vezes trocados com os colegas e amigos da mesma idade. Percebia ainda pouco das coisas, das gentes e do mundo. Os donos originais dos territórios do Novo Mundo não tinham meus olhos abertos para eles. Felizmente, isso mudo. Também cheguei a rememorar e festejar o heroísmo de Joaquim José da Silva Xavier, que extraía dentes, alternativa ao seu desejo de extrair do trono a rainha de Portugal. Fiz-me adulto, como ocorre a quase todos os que avançam no calendário. Pude ver o fato heroico, portanto, como excelente mote para belas peças literárias. Homero, por exemplo, fez da guerra de Troia e do retorno de Ulysses à sua Ítaca a semente ainda hoje cultivada. É nas águas de Ulysses que ainda hoje navegam (mergulham, quando não naufragam alguns) muitos dos melhores escritores e poetas destes tempos sem afeto ao heroísmo. Melhor assim, penso com meus quase oitenta anos. Porque nos sintamos despossuídos, fragilizados, humilhados e ofendidos, acabamos pondo sobre os ombros de terceiros as responsabilidades que nos cabem. Como seres humanos, cidadãos, pessoas de bem (não leiam bens, por favor). De tão rotineiro, recorrente, o abandono dos deveres pelos que os têm acaba por conferir virtudes inadequadas ao verdadeiro sentimento de cidadania. Os médicos que põem sua vida em risco e têm conseguido salvar vidas em meio ao pandemônio desejado, instaurado e estimulado, compreendem, mais que o juramento de Hipócrates, a responsabilidade social e profissional que acompanha seu exercício cotidiano. Salvar vidas, ainda quando levados a enfrentar as forças que se sustentam e alimentam da morte parece-lhes dever irrenunciável e impostergável. E isso, médicos e todos os profissionais de saúde que os acolitam nos ambientes infectados pela covid-19, é o que tem sido enfrentado. Porque aplaudo Brecht e tenho os médicos e demais colaboradores em boa conta, apenas diria: são grandes homens, dignos do respeito, da reverência e, sobretudo, do apoio dos outros homens. Fazendo-o, sei que dou um passo para ficar - sem nunca chegar lá - à altura deles. Pobre do país que precisa de heróis, dizia o dramaturgo alemão.

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