Grande sertão: Veredas, uma leitura*


Viver é muito perigoso. De tão repetida, ora de uma forma, ora usando outras palavras, o mais conhecido romance de João Guimarães Rosa poderia ter a expressão como síntese do quanto o leitor encontrará nas suas mais de 600 páginas. A obra trata, sobretudo, da vida – e de como e onde ela ocorre. Mais importante, a vida em todas as suas dimensões.

Antes, porém, de discorrer sobre o conteúdo de Grande sertão: Veredas entendo oportuno destacar o que tenho como preliminares, uma espécie de carta de navegação, facilitadora da instigante e prazerosa viagem que se derrama das páginas do livro.

As preliminares, seja no prazer da leitura, seja em outros prazeres, é tudo quanto concorre para o melhor desfrute do ato principal. O aperitivo que antecede o sabor do confit de pato em restaurante francês, equivale ao carinho da palavra sussurrada ao ouvido da mulher amada.

Preparatórias, as preliminares não só ajudam os protagonistas ao gozo esperado, também no ato de ler. Elas levam à compreensão do cenário onde se passa aquele capítulo específico da história da humanidade. Servem, também, para aproximar-nos dos protagonistas, conhecendo-lhes os gostos e preferências, às vezes o próprio modo de ser. Por último, são demarcadores do espaço em que o leitor movimentará sua percepção, perspicaz algumas vezes; outras, nem tanto.

Para não cansar esta atenta audiência, começo a indicar o que eu chamaria de generalidades. Aqueles aspectos que, no meu modesto entender, estão presentes em qualquer cometimento humano: um prato de comida típica, um quadro surrealista, um drible do futebol, uma poesia, um vestido de noiva.

A primeira delas traz consigo um ponto que reputo capaz de elevar essa preliminar ao nível da universalidade. É o caráter autobiográfico, mesmo se não tanto ou exclusivo, de qualquer obra, na cozinha, no estúdio, no estádio.

Não que a narrativa se refira à vida real do narrador. O simples fato de narrar obedece às limitações do que narra, às impressões colhidas nas mais variadas fontes onde o ser humano alimenta seu desejo de conhecer – e de contar o que viu, sentiu, cheirou, degustou, tocou – e, também, criou.

Com isso, ele traz a terceiros quando narra, sua percepção das coisas e gentes descritas ou analisadas. Mesmo as personagens criadas pelo autor carregam consigo a forma como o autor as vê. Não fossem as personagens criaturas e o resultado da observação e das reflexões do criador...

Depois, de que valeria escrever, escrever e escrever, ausente do espírito e da vontade do escritor o propósito de ser lido?

Assim (e lhes peço licença para usar expressão que a muitos parecerá chula), quando o autor DÁ A CARA A BOFETE, ele pretende pôr-se à prova, para o bem e para o mal. De uns, obterá entusiástica recepção; de outros, recepção com reservas; haverá os que reagem com indiferença, sendo razoável esperar absoluta e furiosa rejeição da parte de muitos outros dos leitores.

O segundo aspecto que sugiro é o caráter de permanência – ou, ao seu contrário, de fugacidade – da obra. De tal modo que me ocorre a ideia de classicidade (se, mais uma vez, conto com sua aquiescência generosa para dizê-lo). É clássica aquela obra que vence o tempo e se torna, quase sempre, imorredoura. Ou, para ser fiel a estes tempos tão líquidos[1], eterna enquanto dure. Como um dia disse Vinicius de Morais. (Há coisas que só um poeta sabe dizer).

De qualquer maneira, posso resumir o que entendo por clássica: aquela manifestação artística que trata de problemas e temas a um só tempo universais e atemporais. Como os sentimentos humanos e os problemas que afetam o animal inteligente, onde estejam, quando estejam. Aqui se aplicaria, acredito, a expressão latina urbi et orbes.

Uma terceira preliminar – e aqui já me reporto especificamente à obra em pauta – diz respeito à linguagem em que ela se expressa. Seja resultado de profunda e ampla pesquisa nas regiões de que trata o romance, seja fruto da criatividade do médico que se fez escritor, seja, ainda, um composto de material proveniente das duas fontes – o falar sertanejo e a capacidade criativa de Guimarães Rosa, importa apenas destacar que ela só aparentemente desagrada ao leitor. Ao contrário, tantas e tão interessantes são as convocações e provocações que ela dirige aos que a leem – o que bastaria para torna-la um dos mais importantes romances jamais escritos em qualquer língua.

Não será só essa, mas é certo que essa é circunstância ponderável, na inclusão de Grande sertão: Veredas na lista dos cem melhores romances produzidos em toda a história da literatura universal. Quem o diz é o Clube do Livro da Noruega, ao incluí-lo dentre os 100 melhores livros de todos os tempos.

Para o ensaísta, editor, poeta e tradutor ALEXEI BUENO, Grande Sertão: Veredas é uma das três epopeias escritas em língua portuguesa. As outras duas são, o que destaca ainda mais os méritos da obra de Guimarães, Os Lusíadas, de que me recuso a dizer o nome do autor, pela obviedade acaciana em que incorreria, e Sertões, de outro brasileiro, Euclides da Cunha.

Eis como se expressa BUENO:

Muitas vezes afirmamos que a língua portuguesa é a única língua moderna a ter criado três epopeias: Os Lusíadas, Os sertões e Grande sertão: veredas. Uma em verso, no século XVI, e duas em prosa, no século XX. É certo que só Camões a escreveu dentro dos cânones estritos do gênero, mas o titanismo, o caráter bélico e o pathos épico que dominam a narrativa histórico-militar de Euclides da Cunha e o romance de Guimarães Rosa fazem com que ambos os livros, para nós, existam emocionalmente como epopéias, o que nos importa muito mais do que a discussão sobre gêneros literários.[2]

Postas as coisas nesse ponto; assentados os limites deste texto; reconhecida a impossibilidade de avançar mais profundamente na apreciação da obra, porque este não é trabalho de especialista, mas de um encantado leitor, vamos ao que me interessa dizer.

Ambientado, segundo alguns, nos ermos de territórios baiano e mineiro, o romance na verdade poderia descrever outras paisagens. Porque seu conteúdo é muito maior e mais profundo que a altura dos montes ou o caudal desenhados na topografia e na orografia daqueles lugares. Poder-se-ia dizer do território, do cenário natural percorrido por Riobaldo, e eventualmente pelo próprio Guimarães, serem quase acidentais, tamanhas as dimensões e a profundidade dos sentimentos de que trata a narrativa do jagunço.

A descrição das peculiaridades do terreno e a descrição das localidades em que se travaram os combates entre grupos hostis tornam-se quase acidentes, mais que geográficos. Acidentes literários – se me permitem assim afirmar. Em qualquer caso, teria sido necessário dizer qual o palco em que Riobaldo vivia e do qual falava a seu indefinido interlocutor.

Mesmo quando assomam a uma posição tornada absolutamente visível, os sentimentos, sonhos, e desilusões narrados não conseguem esconder as relações interpessoais mantidas entre si pelos protagonistas ou participantes do cenário -, não só o narrado, mas também o cotidiano de grupos humanos diferenciados, espalhados pelo ecúmeno que serve de palco para os acontecimentos dados a conhecer pela boca do amigo de Reinaldo/Diadorim. O que ali se vê poderia ser visto em qualquer lugar aonde o ser humano terá chegado.

Aí, então, é uma questão de nome. A jagunçagem, como um tipo de organização peculiar ao sertão de onde Riobaldo via o mundo, bem que pode corresponder a um pequeno grupo de pescadores em algum lugar à margem de qualquer dos oceanos da Terra. Como poderia ter correspondência em um grupo de mineiros em regiões da América Espanhola ou da África.

Lá, como cá, sentimentos há.

Interessa, mais que os rincões pisados pelos jagunços, e para muito além da trama desenvolvida por Rosa, o conteúdo da narrativa, os sentimentos que ela extravasa, a reação dos que os ostentavam ou escondiam.

Ódio, vingança, o amor em muitas de suas variadas nuances, a gratidão, a fidelidade, a fé, a dúvida, o medo e a ousadia – tudo isso está presente na obra de Guimarães Rosa, como está em vários de outros autores, nacionais e estrangeiros, que merecem o título de universais.

Muitos críticos literários têm ressaltado o pacto com o diabo, de que trata, e não apenas superficialmente, o romance. Desde o Faustoesse é incidente que frequenta as páginas dos melhores e respeitáveis escritores. Goethe, o mais destacado deles.

Há mesmo quem veja grande proximidade entre Guimarães e Homero (pela Ilíada), Cervantes (pelo Dom Quixote) e Dante (pela Divina Comédia). A esses, eu acrescentaria Shakespeare, tantos são os temas universais de que ambos – o Bardo de Stratford-upon-Avon e o ex-médico e diplomata mineiro – rechearam suas tramas, suas obras.

Repercute em mim, portanto, a expressão do escritor hispano-brasileiro Renard Perez: Além da técnica e da linguagem, deve-se destacar o poder de criação e a aguda análise dos conflitos psicológicos presentes na história.

Essa manifestação bem pode servir de fecho ao portão da área em que se reúnem o autor de Grande Sertão: Veredas e os escritores acima citados.

Antônio Cândido, por seu turno, sintetiza quanto temos dito até aqui:

Na extraordinária obra-prima Grande Sertão:

Veredas há de tudo para quem souber ler, e nela tudo é forte, belo, impecavelmente realizado. Cada um poderá abordá-la a seu gosto, conforme o seu ofício.[3]

Fosse eu um especialista em Guimarães Rosa, fosse um crítico de arte, talvez me deixasse inebriar e acabasse por dar maior importância a certos cânones literários, porque isso também aqui existe. Deixo-me levar, contudo, pela emoção do leitor que pensa saber ler, como o exige Cândido. E, em assim sendo, saltam-me aos lábios algumas perguntas. É possível que, aos ouvidos de alguns, possa parecer um desafio, como se eu os convocasse à discussão. Quais são essas perguntas? Tentemos enumerá-las.

Como considerar regionalista uma obra comparável a de tantos gênios da literatura? Quais as razões que levariam o livro à tradução em várias línguas, e não apenas naquelas que provêm do mesmo Lácio, que outro poeta (porque a Rosa não pode ser negado esse título) Olavo Bilac cantava?5

Iniciei esta despretensiosa exposição na tentativa de dizer o que entendo por clássico. A permanência aspirante à eternidade talvez seja o traço mais marcante da classicidade que se pode emprestar a um objeto, obra de arte ou não.

Pois, no meu entendimento, dificilmente os limites do regional atribuem esse caráter, a qualquer que seja o cometimento humano – uma ponte de concreto ou um romance. A universalidade do conteúdo da obra, em si mesma, parece-me como verdadeiro divisor de águas: sem ela, não há que falar em clássico, imorredouro; com ela, a região e o tom regionalista falecem, porque em seu estrito e estreito espaço não cabe tamanha grandeza. Embora, como Tolstoi o tenha dito para pintar o universo, pinte-se primeiro a nossa província.

Apenas a título de ilustração, informo existirem traduções, no período de 1963 a 2006, em onze línguas, a saber: Alemão (1987, 1992, 1994); Catalão (1990); Dinamarquês (duas, em 1997); Eslovaco (1980); Espanhol (1983, 1985, 1999); Francês (1960, 1965, 2006); Holandês (1995); Italiano ( 1998) Norueguês (2006), Inglês 1963) e Tcheco (2003).

Esses dados correspondem ao período 1963, quando o Grande Sertão: Veredas apareceu na língua de Shakespeare, até 2006, quando os compatrícios de Proust e de Ibsen conheceram a tradução desse clássico da literatura brasileira. E mundial, definitivamente.

Benedito, O Leitor de Grande Sertão: Veredas[4]

Permitam-me, antes de encerrar, rememorar aquele que podemos todos considerar o melhor leitor de Guimarães Rosa: BENEDITO JOSÉ VIANA DA COSTA NUNES. Foi ele, por exemplo, quem descobriu que há um vínculo permanente e profundo entre Poesia e Filosofia. Não fosse, ele mesmo, um filósofo durante toda a vida. E o que encontrou em Guimarães uma das expressões máximas de nossa literatura – e de filosofia também. Sem esquecer a poesia, encontradiça em quase toda linha do texto do autor de Sagarana, Tutameia, Primeiras Histórias, Corpo de Baile...

Por isso, empresto de Victor Salles Pinheiro este depoimento:

Dotado de um apurado espírito filosófico,

Benedito Nunes acompanhou de perto a obra

de Rosa, sendo um dos seus primeiros e mais

originais intérpretes, um interlocutor privilegiado

cuja produção agora se reúne neste livro.[5]

Confirma essa posição de privilégio ostentado pelo filósofo e crítico literário, a afirmativa de João Adolfo Hansen, segundo o qual

A lembrança desse pressuposto demonstrado nas

análises dos procedimentos artísticos e dos temas filosóficos de Rosa e de outros autores feitas pela crítica de Benedito Nunes é fundamental, pois permite ver que em Rosa o Brasil é mais, ilimitadamente mais que São Paulo, como um grande sertão ....[6]

Referia-se o autor do ensaio Benedito Nunes, leitor de Guimarães Rosa, à linguagem usada pelo autor de Grande Sertão, cercada dos cuidados e do apuro observados por Mallarmé, Joyce, Beckett, Oswald de Andrade, Lezama Lima, Clarice Lispector, Drummond e João Cabral de Melo Neto.

Justo e oportuno mencionar o que Benedito expressa em um de seus textos:

Grande Sertão: Veredas é bem o romance do Destino.

Mas também pode ser considerado, por esse mesmo

motivo, o romance do próprio Tempo.[7]

Ora, como considerar e restringir determinado espaço, neste universo de que não se conhecem os limites, a uma e só uma região, romance que trata do destino e do tempo? Qual ser humano, em qualquer parte onde se encontre não traz consigo essas duas dimensões às quais se liga enquanto vida houver?

Adiante, NUNES lembra a relação entre Rosa e Goethe, pois ambos tratam do pacto com o diabo, além de que no romance roseano a existência ou a inexistência de Deus é discutida. A quem interessa Deus, se não a toda a humanidade? Desde quando? Possivelmente, desde quando o pitecanthropus erectus apoiou-se nas duas patas com que conhecemos seus descendentes.

Muito mais poderia ser dito, para refutar a infeliz hipótese regionalista da obra de Guimarães Rosa, em particular, o Grande Sertão: Veredas. De resto, um esforço desnecessário – a refutação de agora – eis que a crítica literária mundial já o fez com a conhecida severidade. E, também, autoridade.

  1. [1]Refiro-me ao conceito de sociedade líquida, formulado por ZYGMUNT BAUMAN. [2]BUENO,A. Ribeiro, Rego, Rosa e Rocha. Afinidades eletivas. IN Literatura culta e popular em Portugal e no Brasil. Homenagem a Arnaldo Saraiva, p.35. [3]CÂNDIDO, A. APUD SOARES, C.C. IN Grande Sertão: veredas: a crítica revisitada. Letras de Hoje, Porto Alegre -RS, v.47,nº 2, p.136, abr/jun 2012. [4]HANSEN, J.A. IN PINHEIRO, V.S. Benedito Nunes: a Rosa o que é de Rosa, p.23. [5]PINHEIRO, V.S. op.cit. p.8.r [6]Idem, op. cit.p.34. [7]Idem, op.cit.p.204.

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* Apresentado no Seminário comemorativo do Dia Mundial do Livro, promovido pela Fundação de Cultura de Manaus- ManausCult, em abril de 2019.

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