Globalização e resultados

Interessante matéria publicada na Folha de São Paulo, 24/08, assinada por Miguel Lago e Pablo Peña Corrales trata da percepção do professor turco-americano Dany Rodrick. Segundo esse estudioso, o processo de globalização (excessiva, de acordo com a interpretação de Pablo e Miguel) trouxe consigo alguns vícios, comprometedores da democracia e da soberania nacional. Também a liberalização e a desregulamentação aparecem como vícios, quando o autor menciona o que os articulistas chamam trilogia de Rodrick. Tal trilogia seria constituída da democracia, da soberania e da globalização econômica. Uma espécie de eixos sobre os quais incide o olhar do professor de Harvard. Os momentos cruciais do processo exterminador de fronteiras já teria marcadas três fases: a inicial, vinda do século XIX, em que foi imposto o padrão-ouro às relações internacionais; o segundo, nos anos 1990, com a oposição entre globalização econômica e os mercados nacionais, e a de agora, em razão da covid-19. Neste momento, temas cruciais seriam clima, vacina, redes de informação e conhecimento. Em função dessas novas variáveis (que eu chamaria emergentes), vai-se delineando a necessidade de conceituar e discutir o bem público comum. Dany Rodrick critica a hiperglobalização e indica a conveniência de escolher, dentre os três lemas, apenas dois, diante da impossibilidade.de vigência concomitante dos três. Mostra preferência por um populismo de esquerda, democrático, ao mesmo tempo em que condena a tecnocracia. Ao que me parece, a leitura de Octavio Ianni e Hannah Arendt ajudaria a entender a questão.

Já não se trata mais de saber se o mundo continuará a apagar fronteiras e intensificar as relações entre as nações e governos. Fruto, sobretudo, do avanço tecnológico, a globalização tem pouca probabilidade de ser estancada. No máximo, pode perder a aceleração atual, o que considero pouco provável, pelo recuo que isso significaria. Como aproveitar as oportunidades que o encurtamento da distância entre continentes e nações oferecem e tirar proveito do avanço tecnológico, portanto, cada dia mais deve constituir-se na preocupação central dos governos e sociedades. Minha impressão, para a qual não reivindico mais que atenção e crítica, é a de que nenhuma discussão séria e consequente pode levar a algum resultado, se as desigualdades não representarem o ponto zero do debate. Qualquer debate, onde quer que aconteça.

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