Globalização e ignorância

Desdenhar da globalização é das mais prejudiciais manifestações do negacionismo. Equivale à avaliação equivocada da gravidade da covid-19, tanto quanto do terraplanismo. Esse desdém, portanto, nenhum benefício trará aos países onde os governantes são refratários à Ciência e ao conhecimento em geral. O simples fato de que os capitais transitam com enorme velocidade, diariamente, de um a outro ponto distante do Planeta revela quão tênues são hoje as linhas divisórias entre as nações. Daí a necessidade de serem atualizados certos conceitos, sob pena de perdas significativas para as nações que se tornarem anacrônicas. Se ainda soaria exagerado dizer-se já vivermos numa aldeia global (nem sei se é o caso), exagero maior seria ignorarmos quanto o avanço tecnológico configurou sob outras silhuetas o mundo atual. Dois conceitos, em particular, parecem-me exigentes de reinterpretação. Refiro-me à soberania e ao nacionalismo. Não que sejam - ou devam ser - apenas os fenômenos por eles descritos o objeto de preocupação e interesse que não são só meus.

Ainda agora, anunciam-se dificuldades em grande medida impostas por visão claramente anacrônica do mundo em que vivemos. Não é difícil imaginar quais os resultados a que pode ser levado o País, se a ignorância prevalecer sobre a abertura para o cenário internacional. Não trato pura e simplesmente das relações comerciais entretidas pelos Estados-nações, mesmo sabendo serem elas o indício mais notável do processo de que me ocupo neste texto. A compreensão do aspecto mais amplo e abrangente do processo há de anteceder qualquer outra preocupação. Entendê-lo, neste caso, equivale a perceber quanto quase nada escapa à abrangência característica da globalização. Assim, se não chegamos à aldeia prevista por Marshall MC-Luhan, a caminhada até lá mostra-se inexorável.

No concreto, quero dizer pouco positivo e alvissareiro para o Brasil, o comportamento do governo em relação ao ambiente. Ainda agora, oito países mostram-se dispostos a reduzir a intensidade de suas relações comerciais conosco. Antes, a dinheirama que a Noruega e a Alemanha destinariam à proteção da Amazônia correu o risco de ser mandada de volta.

A rigor, não se tratava de reação nacionalista do governo brasileiro, tamanha a contradição entre evitar a contribuição financeira dos dois países europeus e, pelo menos, duas outras decisões: a reverência e veneração à bandeira de outro país e a entrega da base de lançamento de foguetes de Alcântara, no Maranhão. Logo aqui já se pode entender porque estes dois fatos não podem ser o início de qualquer discussão séria sobre o tema. Tudo quanto os condiciona é mais importante. Decorre disso a prioridade a ser dada à interpretação do processo e de como a realidade local pode com ele conviver. Dizendo em outras palavras: como inserir o País no mundo globalizado. Pelo menos nosso esforço pode orientar-se em alguma de duas direções: a de uma nação colonizada, submissa; ou de uma nação altaneira, cuja soberania corresponde à manutenção de relações internacionais de solidariedade, não de subordinação.

Se atentarmos para a pandemia da covid-19, e fizermos desta trágica experiência matéria de nossas reflexões, talvez muito aprenderemos.

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