Generalização inadequada


Incluo-me dentre os que não morrem de amores por Reinaldo Azevedo. Nem sempre concordo com os comentários dele, uma espécie de convertido que trata sobretudo de fazer o mea culpa. Algumas vezes, esse exercício de arrependimento expõe ideias e propostas com as quais concordo. Outras vezes, não.

Alinhando-se com a maioria dos seus colegas jornalistas, Reinaldo critica o autoritarismo indesmentível do Presidente Jair Bolsonaro, sem discordar dos rumos econômicos que ele imprime ao governo. Assim, a tentativa de garrotear os media e as agressões à cultura têm merecido vigorosa rejeição do jornalista (como, de resto, de quase todos os seus colegas), enquanto as reformas desde a previdenciária, coincidem com os sonhos de Reinaldo – e da grande maioria dos jornalistas em exercício. Talvez porque tenham medo de perder o emprego. Mesmo se aplaudem a falta de empregos registrada e a ameaça de as oportunidades de alcança-lo sejam reais. Para os outros, sempre será bom dizer.

Detenho-me em recente manifestação de Reinaldo Azevedo, quanto ao Brasil (que ele quer seja posto à frente das políticas públicas) e aos brasileiros. Ele quer mais daquele e menos destes, no cotidiano governamental.

Primeiro e fundamental equívoco (se o for, realmente) é a generalização cometida pelo jornalista. A admitir-se o que ele defende, seria posta em prática a anedota sobre a contradição entre a natureza da antiga Terra da Santa Cruz (que Elio Gaspari chama Pindorama) e o brasileiro, o ser humano que a habita. A terra, fértil, extensa, infensa a grandes fenômenos naturais, como vulcões em erupção, tsunamis, terremotos; seus habitantes, gente de última categoria – exageradamente egoístas, ignorantes, perversos, preguiçosos etc.

Daí a hipótese, que nem por brincadeira pode ser admitida, menos ainda como simples provocadora de discussão, de trocar o brasileiro pelo japonês (ou qualquer outro povo), como forma de solucionar nossos problemas.

De qual brasileiro Reinaldo Azevedo trata? Do que trabalha de sol a sol, quando há emprego, ou do que vive de rendas e riquezas constituídas à custa do suor alheio? Do que paga impostos e faz verdadeira acrobacia orçamentária para sobreviver e alimentar e educar a família, ou do que, obtendo financiamento com dinheiro público, só faz aumentar a conta bancária e a riqueza pessoal? Do que fica sem emprego e meios de sobrevivência porque seu empregador faliu ou do falido que não viu alterado seu consumo de bom vinho, excelente caviar e invejável conforto, além dos prazeres de costumeiras viagens ao exterior?

Nunca será demais lembrar que os brasileiros é que fazem o Brasil. Às vezes, é verdade, sob inspiração que vem de fora. Mas isso não basta para tirar-nos o direito e o dever de fazê-lo como nos apraz. Nisso não somos diferentes de ninguém, de povo nenhum: a sociedade tem a cara que os societários desejam. Ou são levados a desejar.

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