FUGA INSENSATA


Se não me surpreende, causa-me estranheza o tom de debates transmitidos pela televisão, a pretexto de discutir os problemas nacionais. Ao fim da noite do último sábado, a Globo News promoveu encontro entre três economistas - Marcos Mendes, INSPER ; Bráulio Borges, FGV; Débora Freire da UFMG – sob a coordenação da jornalista Renata Loprette. Sem discutir a capacitação acadêmica dos debatedores, posso dizer deles serem figurantes diferentes de um enredo deveras conhecido. Pelo menos, no que concerne aos marcos dentro dos quais a discussão deve se pautar. Daí a sensação de déja vu. É como se os atores fossem outros, cuja forma de encarar os temas postos e as preferências reveladas não fosse se não uma questão de estilo. Nada mais. Em substância, nada se altera, até quando se repete a fuga da abordagem do assunto em suas mais promissoras perspectivas.

Tem-se falado, reiteradamente, de ajuste fiscal, dívida pública, lerdeza ou corpo mole do Congresso, abusos salariais, desconfiança dos investidores, labirinto tributário (aqui, expressão minha) etc. Nada, como se vê, que traga algum ponto de vista a partir de ângulo diferente. Que existe, mas é cuidadosamente ocultado. Há convergência entre os debatedores, em geral, quanto aos seguintes pontos: o governo não dispõe de recursos suficientes para financiar todos os programas que levam seus serviços à população; há remuneração exagerada dos funcionários públicos, comparados aos trabalhadores do setor privado; o estado precisa reduzir o tamanho de sua máquina, consumidora de expressiva parcela dos recursos financeiros. É sempre fácil falar da fome alheia, quando temos o estômago forrado. Há, porém, alguns que enxergam o mundo que os cerca. Raramente as câmeras se interessam por eles.

Timidamente, e por uma vez, a professora da UFMG proferiu o palavrão tão temido: desigualdade. Assim, a discussão parecia travar-se entre respeitados economistas da Finlândia, da Noruega ou... Bem vestidos e educados, certamente frequentam mais a Quinta Avenida que as ruas alagadas do Rio de Janeiro, de São Paulo ou de Belo Horizonte. Ou a periferia das cidades brasileiras.

Da pretendida e anunciada reforma tributária, pouco ou quase nada foi dito. Pode-se imaginar, supor e suspeitar de que a omissão não é gratuita. Ao contrário, fugir a questões que tocam ou, mesmo, tangenciam o problema mais grave e o nó górdio, faz bem à saúde.

Dinheiro é tudo de quanto o governo precisa. Gigantesco ou não, o estado não consegue prestar em nível minimamente aceitável os serviços exigidos pela porção mais pobre da população. A dívida pública consome 50% do orçamento nacional. Doenças tidas como erradicadas voltam – e com que força! A violência se espalha por todas as cidades, acrescentando às agruras dos pobres o desconforto e o desassossego.

Do outro lado, sucessivas desonerações, favores e perdões fiscais, dinheiro farto a juros módicos impulsionam a absurda acumulação do setor privado, setor financeiro em especial. Enquanto as lideranças desse setor pedem por confiabilidade. Algo surreal, e não apenas porque tal pedido é contrastado pela realidade. Só do outro lado estão os que podem legitimamente e com justiça pedir um gesto credor de confiança. Mínimo que seja! Não é o caso.

Dos países onde a desigualdade assume todas as feições de que o fenômeno se faz detentor, o Brasil não pode ficar à mercê da voracidade que condena a maioria à vida indigna, enquanto reduzidíssima parcela desfruta, em zombaria, do que o suor de todos gerou.

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