Frature-se

O autochamado projeto para a educação superior brasileira ainda dará muito o que falar. Discutir, sobretudo. Saído da cabeça de alguns supostos iluminados, sem a menor atenção à contribuição dos que acumulam experiência na área, o Future-se não resultará se não em fraturas ainda mais profundas na educação brasileira.

Comecemos pelo princípio: o financiamento da escola brasileira, de alto a baixo. Mesmo os atuais gestores, filiem-se à qualquer orientação ideológica, estão cientes da carência de recursos. Não fosse assim, sequer referiam a necessidade de ir buscar recursos fora dos cofres públicos. É, sobre todas as demais dimensões do problema, esse o objetivo anunciado: trazer da esfera privada o que a administração pública tem feito questão de negar. E, em última análise, colocar a educação a serviço da produção. Em outras e mais claras palavras: fazer da escola um campo de treinamento e capacitação de operadores de um sistema econômico e social que a desigualdade traduz e aprofunda.

A primeira consequência do financiamento da educação com recursos privados será, na prática, a dispensa do Estado dos encargos desse tipo de investimento. Para os defensores do Future-se, educação não é mais que despesa.

Aqueles que deveriam ser chamados a opinar, ao contrário, têm sido afastados do debate. Talvez porque, experimentados no labor educacional e afeitos à discussão sem subterfúgios, ameaçariam a verdade que pretende ser imposta. Observe-se a fúria com que programas de pó-graduação veem cortadas as bolsas que os sustentam, ao mesmo tempo - e com base nesse conceito calunioso - que o ambiente universitário é acusado do que os arautos de uma nova/velha ordem chamam balbúrdia.

Não se pense, porém, que o MEC é voz dissonante. Na verdade, as propostas, Ministério a Ministério, guardam alguma coerência. Lamentável que o arranjo proposto, no MEC, dá seus sinais em muitas outras áreas do Estado brasileiro. Que o digam o Ministério da Ciência e Tecnologia, do Meio Ambiente, da Cidadania ... e por aí vai.

O que o MEC vem buscando, portanto, tem muita probabilidade de fraturar ainda mais a sociedade brasileira, talvez objetivando tornar-nos todos paralíticos, incapazes de mover uma palha para reduzir as desigualdades e indicar bons rumos para o futuro de todos. Nada menos que uma fratura, exposta mais e mais, a cada dia.

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