Frasista da tragédia

Frasista da tragédia

O Presidente Jair Bolsonaro corre o risco de entrar na História não como um político ou um militar, mas como um frasista. Os anos passados na caserna ele jogou na lata do lixo, decisão reproduzida nele pelos chefes militares que o excluírem de sua comunidade. Como político, ele não construiu mais que uma imagem desbotada, em que pese o longo período em que exerceu mandato popular. Sua presença no ambiente parlamentar é destituída de qualquer registro que lhe atribua, ao menos, o selo da mediocridade. Nem medíocre ele foi. Membro do baixíssimo clero, o mais profundo que se sabe dele é ter planejado um ataque terrorista e passado por numerosos partidos em menos de trinta anos.

No terreno das frases, no entanto, Jair Bolsonaro tem produzido expressões significativas, pelo que cada uma delas revela dele, como ser humano, se não é generosidade demais dizê-lo assim. Já nem vale a pena lembrar do juízo feito por ele a respeito da covid-19 – uma gripezinha. O conhecimento limitadíssimo de Bolsonaro, seja qual for o tema, assunto ou problema, desautorizaria esperar do Presidente a mínima compreensão da pandemia que nos aflige. Sua reação diante do vírus, dos que o combateram de fato, dos que morreram por causa dele, das angústias da sociedade e do que ainda está por vir – diz tudo.

Mais tarde, Bolsonaro desdenhou da preocupação das pessoas com os riscos associados ao vírus, criando a zombeteira resposta: não sou coveiro. Morrer é o destino de todos nós. Sou Messias, mas não faço milagres. De novo ele esclarecia suas motivações e compromissos. A vida, em especial a dos outros, para ele não conta. Por isso ganha lugar destacado na galeria dos governantes, mundo a fora, apegados ao que se vem chamando necropolitica, a política voltada para a morte. Uma espécie de executivo investido pela natureza da função de que a foice ostentada na mão de uma mulher vestida de negro anuncia.

Não demorou, da mesma boca e inspirada pelos mesmos valores, ouvimos um e daí? Assim ele respondeu à pergunta feita por jornalistas sobre o crescimento do número de mortos pelo novo coronavírus. Mas não parou por aí a capacidade do ex-capitão em produzir expressões ofensivas aos mais elementares valores humanísticos. Para ele, mortos 100 mil brasileiros, é hora de tocar a vida. Nesse caso, os antecedentes e a conduta de Bolsonaro dão o direito de supor ter ele usado o verbo como o usa o maestro de uma orquestra. Fazer música, barulho, sons tirados de um instrumento musical. Lendo-se a palavra seguinte, ele pode ter usado o verbo com o mesmo sentido que damos à expressão puxe daí! Poderia até completar, acrescentando você é a intrusa, pois o lugar aqui é da morte.

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