Flor que não se cheira

Qualquer que seja, não é o tamanho do mico que faz a diferença. Ao mesmo tempo em que o pagamos, esforçamo-nos por imitar exemplos vindos de fora, em geral os piores. Se cultivamos a síndrome de Estocolmo ou preferimos adotar práticas do Haiti, é irrelevante. Daí a reiterada adoção de manifestações ofensivas à cidadania, como se a monarquia ignorante, não o despotismo esclarecido, fosse uma conquista, não o retrocesso. Distantes geograficamente do país escandinavo, nem por isso ficamos imunes à influência de fenômeno lá ocorrido. Refiro-me à sedução do malfeitor sobre a conduta de sua vítima. Trata-se de questão desafiadora da argúcia e da reflexão dos cientistas do comportamento humano, de psiquiatras de toda corrente a psicólogos sociais. Repetem-se no Brasil, contudo, manifestações da síndrome que veio de longe, não obstante o caráter patológico de que se revestem. Substitui-se o interesse por entender e interpretar as ações malévolas, pela paixão que atrai a vítima e a leva a reforçar o instinto orientador da conduta do agente doentio. Chega-se, portanto, ao ponto em que o mal (e o mau) é aplaudido e estimulado, quem sabe até desejada sua generalizada adoção. Esse é um dos aspectos facilmente discerníveis de nossa triste e trágica realidade. Outro desses aspectos vem da perspicaz percepção de Gilberto Gil, para quem o Haiti é aqui. Não que a pequena Ilha guarde muitas peculiaridades que também ostentamos, não fosse o pertencimento ao mesmo continente. A sociedade lá instalada, todavia, é responsável pelas regras que a conduzem, e condicionam as relações sociais em todos os planos e níveis. Nesse particular aspecto, pode-se constatar sem dificuldade como a pequena Ilha projeta suas práticas, tomadas como farol, sobre nação que para uns só é grande em termos territoriais. Isso não exclui os que trazem o desejo de grandeza na palavra, mesmo se as condutas, decisões e ações se caracterizem pela pequenez. Não nos detenhamos na simpatia pelos tontons-macoutes, de resto a grande contribuição do Papa Doc a seus mais recentes herdeiros, lá como aqui. Sigamos em frente. Observemos a conduta dos que pensávamos de algum modo e em medida que a prudência e a sabedoria mandam serem mínimas, capazes de nos representar. É ao Congresso Nacional que me refiro, em especial à Câmara dos Deputados. Lá tramita a já famigerada PEC da Impunidade. Nem mais nem menos que a tentativa de pôr o manto da impunidade sobre os ombros dos deputados federais. Esse grupo que convive em fraterna e solidária confraria com portadores de tornozeleiras eletrônicas e frequentadores assíduos das colunas policiais, quando não da relação de denunciados por atos constantes de extensa relação de crimes. Desde as também famigeradas rachadinhas, até homicídios, naquela casa um dia – por mil razões – chamada Câmara Baixa assentam-se excelências que não seria injusto chamar excrescências. Tudo, de modo a tornar oportuna e justa a adoção de Flordelis como a musa dos distintos parlamentares. O que justificaria o uso permanente de máscaras, desta vez para proteger apenas as narinas e defender o olfato de odores desagradáveis.

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