Fla-Flu institucional


Polêmico por estilo e opção, o Ministro Gilmar Mendes acaba de contribuir para o acirramento do péssimo clima em cuja construção tanto se têm empenhado o Presidente da República e alguns e seus fanáticos seguidores. De Jair Messias Bolsonaro não se poderia esperar fazer diferente. Surfando nas águas de profunda decepção com os governos de Lula e Dilma, nem a falta da mínima ideia sobre os problemas o impediu de eleger Presidente o militar excluído do ambiente castrense; . Das duas circunstâncias – a frustração coletiva e a ignorância absoluta – aproveitaram-se as forças obscurantistas há pelo menos duas décadas empenhadas em alcançar o poder. Em que isso resultou não é preciso dizer. Além dos números, imagens reiteradamente postas diante dos nossos olhos traduzem o trágico cenário. Os mortos por uma pandemia desdenhada pelo governante se somam aos negros e pobres que demônios portando armas sacrificam diariamente, não raro usando instrumentos pagos com o tributo oferecido pelas próprias vítimas.

Quanto ao Ministro do Superior Tribunal Federal, identificamos um erro (?) de origem. Ninguém põe em discussão o saber jurídico de Gilmar. Ao contrário de alguns de seus pares, o polêmico magistrado jamais evidenciara qualquer tendência a revelar a ilibação exigida pelo cargo. Por tudo isso, sua candidatura não deveria ser proposta ao Senado. Mesma é a razão – caso outras razões não houvesse – pela qual a antes chamada Câmara Alta deveria recusar a nomeação. Executivo e Legislativo, portanto, mais uma vez se acumpliciaram, não exatamente em benefício da sociedade. Que não apenas lhes paga os salários, mas precisa respeitá-los. Para tanto, encontrando motivos que justifiquem tal respeito.

Tem-se dito repetidamente que a Jair Bolsonaro interessa o caos. A conduta que ele teima em adotar, no caso da pandemia tanto quanto em outros temas e problemas, reforça a suspeita de que a ordem jurídica não consta de suas preocupações. A democracia, menos ainda. Seus colegas de caserna, melhor que ninguém, sabem dos acontecimentos que envolveram o ex-capitão e respondem pela exclusão dele das fileiras militares. Nesse caso, também os ex-camaradas têm algo a lançar em seus débitos.

Estudante de Direito à época em que o juiz só falava “nos autos”, ao mesmo tempo em que o saber jurídico e a reputação ilibada eram predominantemente responsáveis pela ascensão ao alto posto da magistratura nacional, manifesto meu estranhamento. Não que me anime qualquer saudosismo. Isso constituiria imperdoável anacronismo. Ao contrário, meu estranhamento e indignação resultam do desejo de ver a sociedade ir ao encontro do futuro. Em suma, a aspiração de um dia, o mais breve que pudermos, chegar ao tão proclamado Estado Democrático de Direito. Afinal, a Defesa e o STF são órgãos de Estado, não de um governo, seja ele qual e de quem for.

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